Dá para acreditar? A série de televisão ‘Tarzan’ teve cenas gravadas no Brasil

As selvas tropicais, com sua beleza indomável e perigos espreitando em cada folha, sempre foram o palco perfeito para histórias de aventura e heroísmo. E poucas figuras encarnam esse espírito melhor do que Tarzan, o rei da selva. Mas você sabia que, antes de se tornar um ícone da televisão global, a série Tarzan (1966-1968) teve suas raízes profundamente fincadas em solo brasileiro? Sim, as exuberantes paisagens do Brasil serviram como cenário inicial para as emocionantes aventuras do herói, em uma produção que prometia revolucionar a forma como o personagem era visto na telinha.

Com um total de 57 episódios, a atração foi uma criação de Sy Weintraub, um nome já bastante familiar aos fãs do Homem Macaco. Weintraub não era novato no universo de Tarzan; ele já havia produzido filmes do personagem no país, o que lhe dava uma vantagem logística e um conhecimento prévio das locações e desafios. Sua visão era trazer um Tarzan mais “realista” e menos caricato para a televisão, um herói que se misturasse de forma mais autêntica com a natureza selvagem. E para dar o pontapé inicial nessa audaciosa jornada, as primeiras cenas foram gravadas em um dos cartões-postais mais espetaculares da América do Sul: as majestosas Cataratas do Iguaçu, na fronteira do Brasil com a Argentina e o Paraguai. Imagine a grandiosidade, a força da natureza como pano de fundo para as primeiras aparições desse Tarzan! Era uma aposta alta, um espetáculo visual que prometia prender os espectadores desde o primeiro momento.

A aventura de Tarzan: da selva brasileira aos desafios da produção

A escolha do Brasil como cenário inicial para Tarzan não foi apenas uma questão estética; foi uma decisão estratégica de Sy Weintraub que buscava autenticidade e uma escala cinematográfica para a televisão. As Cataratas do Iguaçu, com sua imponente cortina d’água e a densa mata atlântica ao redor, ofereciam um cenário sem precedentes para as proezas do herói. No entanto, o que parecia uma ideia brilhante no papel logo se mostrou um gigantesco desafio logístico e de produção. Filmar em locações tão remotas e selvagens no Brasil da década de 1960 era uma tarefa hercúlea. A equipe enfrentava calor intenso, umidade sufocante, insetos e a falta de infraestrutura básica, como estradas pavimentadas e acesso fácil a equipamentos e serviços médicos. Era uma verdadeira aventura por trás das câmeras, com os próprios membros da equipe vivendo uma versão “light” dos desafios que seu protagonista enfrentava.

Weintraub queria um Tarzan que parecesse ter crescido na selva, um homem forte e ágil, mas também com um senso de humanidade e justiça. Sua experiência prévia em filmes como Tarzan and the Great River (1967), rodado em partes do Brasil e que inclusive contou com o ator Mike Henry, lhe deu a confiança para tentar a empreitada televisiva em grande estilo. Ele buscava um protagonista que não apenas encarnasse a força física do personagem, mas que também pudesse transmitir a essência de um nobre selvagem. A série prometia não ser apenas mais uma adaptação, mas uma que mergulharia nas raízes do mito, explorando a relação do homem com a natureza e os conflitos que surgiam quando o “civilizado” invadia o território do “selvagem”. A grandiosidade do projeto, porém, exigiria sacrifícios e reviravoltas inesperadas.

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Série Tarzan

O reinado curto de Mike Henry e a busca por um novo rei da selva

A busca pelo Tarzan perfeito é uma saga à parte na história do personagem. Para a série de 1966, a produção apostou em Mike Henry, um ex-jogador de futebol americano com uma presença física imponente e um porte atlético que parecia ideal para o papel. Sua força e robustez eram inegáveis, e Weintraub viu nele o potencial para um Tarzan mais viril e menos “domado”. Henry foi contratado e embarcou na aventura brasileira, mas a realidade das filmagens na selva se mostrou muito mais brutal do que qualquer jogo de futebol. As condições, descritas como “precárias”, iam além do calor e dos insetos. Envolveu longas horas de trabalho em ambientes inóspitos, riscos constantes e um nível de estresse que testava os limites de qualquer profissional.

O ponto de ruptura veio de uma forma bastante dramática e inesperada: Mike Henry foi atacado por um chimpanzé durante as gravações. Embora os animais fossem treinados, a interação com feras selvagens sempre carregava um risco inerente, e o incidente foi a gota d’água para o ator. A experiência traumática, somada às dificuldades e ao esgotamento físico e mental, levou Henry a tomar a difícil decisão de abandonar o trabalho. Sua saída foi um choque para a produção, que se viu sem seu protagonista em meio às filmagens no Brasil. Era preciso agir rápido, pois o cronograma apertado e o investimento já feito não permitiam atrasos prolongados. A busca por um novo rei da selva começou de forma frenética, e a salvação veio de um texano com uma determinação inabalável.

Ron Ely assume o cipó e eterniza o grito de Weissmuller

Com a saída abrupta de Mike Henry, o futuro da série Tarzan pairava na incerteza. Foi então que Ron Ely, um ator texano com experiência em papéis de ação, entrou em cena para salvar a produção. Ely não apenas assumiu o papel principal, mas concordou em um aspecto crucial que Henry havia evitado: atuar também nas cenas de perigo. Sua disposição em realizar as próprias acrobacias e se jogar nas cenas de luta e aventura conferiu uma autenticidade e um dinamismo à interpretação que cativaram o público. Ron Ely rapidamente se tornou o rosto inconfundível do Tarzan televisivo daquela época, com sua presença atlética e sua capacidade de transmitir tanto a força selvagem quanto a inteligência do personagem. Ele abraçou o papel de corpo e alma, enfrentando os desafios da produção com uma coragem que ecoava a do próprio herói.

No entanto, um elemento icônico permaneceu intocado, uma ponte sonora com o legado cinematográfico do personagem. Para o grito característico de Tarzan – um som que se tornou sinônimo do rei da selva e que é imediatamente reconhecível em todo o mundo – foi usada a gravação clássica e inconfundível de Johnny Weissmuller, realizada na década de 1930. A decisão de reutilizar o grito de Weissmuller foi uma jogada inteligente. Além de ser instantaneamente familiar aos fãs mais antigos, era um aceno respeitoso ao Tarzan que definira o personagem para gerações. Era uma forma de honrar a tradição enquanto se construía uma nova encarnação para a televisão.

Com a entrada de Ron Ely e a necessidade de otimizar a produção, o restante da série foi rodada em locações no México. Embora o Brasil tenha oferecido um cenário espetacular para o início da aventura, as condições e a logística mexicanas se mostraram mais viáveis para a continuidade das filmagens. A mudança de país permitiu que a produção encontrasse um ritmo mais consistente, garantindo que os 57 episódios fossem entregues dentro do prazo.

A série Tarzan (1966-1968), apesar das turbulências iniciais e das mudanças de elenco e locação, deixou uma marca duradoura na história da televisão. Ela trouxe um Tarzan vibrante e acessível para milhões de lares, consolidando Ron Ely como um dos intérpretes mais memoráveis do personagem. Mais do que uma simples história de aventura, a série explorava temas de ecologia, justiça e a eterna batalha entre a natureza e a civilização, temas que continuam ressoando com o público até hoje. E pensar que tudo começou nas majestosas e desafiadoras selvas brasileiras!

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