Série brasileira da Netflix, ‘3%’, explora futuro distópico

O elenco de 3% se reuniu em entrevista coletiva para apresentar a primeira temporada antes do lançamento, marcado para 25 de novembro de 2016 na Netflix. A produção chegou à plataforma como a primeira série brasileira original do serviço, num momento em que a Netflix ainda expandia sua aposta em conteúdo local fora dos Estados Unidos.

O Brasil como distopia, e vice-versa

Ambientada em um futuro pós-apocalíptico, a série acompanha uma sociedade dividida entre a miséria da maioria e a abundância de Mar Alto, região isolada e privilegiada onde apenas 3% dos candidatos conseguem chegar. O caminho passa por um processo eliminatório brutal, com provas físicas, psicológicas e dilemas morais que testam não só a capacidade dos participantes, mas sua disposição de trair, mentir e abrir mão de quem amam.

O criador Pedro Aguilera começou o projeto em 2009, muito antes da Netflix entrar em cena. A ideia nasceu como websérie de baixo orçamento, lançada em 2011 no YouTube, onde acumulou audiência suficiente para chamar a atenção do mercado. Aguilera cita 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, como referências diretas do roteiro. A estrutura distópica, no entanto, não é apenas literária: a atriz Bianca Comparato, protagonista da série, resumiu o que diferencia 3% de produções similares. “O Brasil é uma verdadeira distopia, em que temos tanta segregação e tanta desigualdade. A série mostra um futuro que ao mesmo tempo é o nosso presente, como Black Mirror. Há um teor político neste conflito que envolve 3 versus 97%.”

A comparação com Black Mirror não é casual. Ambas usam a ficção científica para tornar visível algo que já existe, não para especular sobre o que pode vir. No caso de 3%, a desigualdade socioeconômica brasileira funciona como matéria-prima narrativa, o que dá à série uma camada de urgência que produções distópicas europeias ou norte-americanas raramente alcançam com a mesma naturalidade. A websérie original de 2011, que Aguilera rodou com orçamento mínimo em São Paulo, já carregava essa premissa central. Foi a consistência da ideia, não a produção, que convenceu a Netflix a bancar a versão expandida.

Bianca Comparato estrela a nova série da Netflix 3%. Crédito: Pedro Saad/Netflix
Bianca Comparato estrela nova série da Netflix. Crédito: Pedro Saad/Netflix

Aposta em série de ficção científica

Bianca Comparato, conhecida do público brasileiro por A Teia e Os Ausentes, carrega a protagonista Michele com contenção. Ao lado dela, João Miguel interpreta Ezequiel, o responsável por conduzir o processo seletivo. O ator, com passagens por filmes como Carandiru e O Homem do Futuro, trouxe à coletiva a ambiguidade do personagem: “Ele é um homem que escolhe essas novas pessoas, que tem o domínio da situação. O interessante é observar a relação do ser humano com o poder e as fragilidades que isso causa.” Ezequiel funciona como figura moral central da série justamente porque não é um vilão simples. Ele acredita no sistema que administra.

O restante do elenco inclui Michel Gomes, Rodolfo Valente, Rafael Lozano, Vaneza Oliveira, Viviane Porto e Mel Fronckowiak, todos brasileiros, todos falando português. Esse detalhe importa: a Netflix manteve o idioma original sem exigir adaptações para o mercado internacional, uma decisão que antecipou a estratégia que a plataforma consolidaria anos depois com La Casa de Papel e, mais tarde, com Round 6. Em 2016, apostar num elenco inteiramente nacional, sem nenhuma figura de apelo internacional no topo do cartaz, ainda era lido como risco considerável dentro da indústria.

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A trajetória da série, do YouTube ao encerramento planejado na maior plataforma do mundo, é o tipo de arco que raramente acontece. 3% percorreu inteiro e fez isso em português.

*Nota do autor: 3% estreou ao lado de Club de Cuervos, do México, e antes de qualquer produção europeia de peso. O desempenho foi suficiente para garantir uma segunda temporada em 2018, uma terceira em 2019 e uma quarta e última em 2020. Ao contrário da maioria das séries canceladas por queda de audiência, a série encerrou com um arco narrativo planejado, algo que a própria Netflix raramente permite. Aguilera chegou ao fim com autonomia criativa preservada, o que, no contexto da plataforma, é um dado tão relevante quanto os números.

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