A partir de 26 de outubro, às 22h, o AXN estreia Em Nome da Justiça, série documental de 13 episódios que examina condenações wrongful — casos em que a Justiça brasileira errou, e alguém pagou por isso.
O que a série faz que o true crime comum não faz
Em Nome da Justiça não se enquadra no formato de true crime que virou padrão no streaming: não há mistério aberto nem suspense sobre o culpado. O ponto de partida é o erro já cometido. Cada episódio parte de uma sentença que o tempo ou novas evidências demonstraram ser equivocada, e reconstrói o caminho que levou à condenação incorreta, passando por assassinatos, tráfico, roubo e abuso sexual.
A produção ouviu vítimas, testemunhas, policiais e promotores, o que significa que a narrativa não é construída apenas pelo lado de quem foi inocentado. Esse acesso múltiplo é o que diferencia o projeto de um documentário de advocacia, onde a câmera serve à tese de inocência desde o primeiro frame. Aqui, o formato propõe reconstruir o processo, não apenas o desfecho.
A coprodução é da Sony Pictures Television com a JPO Produções, produtora brasileira com histórico em projetos de entretenimento e jornalismo para canais fechados. O AXN, canal da Sony no Brasil, tem usado o horário das 22h para séries com apelo mais adulto e temático, o que posiciona Em Nome da Justiça num slot estratégico para audiência de nicho fidelizado.
Ilana Casoy e o problema de pesquisar o que o Brasil prefere esquecer
O programa é comandado por Ilana Casoy, criminóloga e escritora que se tornou referência no Brasil após publicar a série Serial Killers, que estreou em 2002 e foi reeditada várias vezes desde então. Casoy é uma das poucas vozes brasileiras com trânsito entre o meio acadêmico, o jornalístico e o de entretenimento quando o assunto é crime, e sua presença dá ao projeto uma credibilidade que vai além do apresentador-celebridade.
O desafio de pesquisa que ela descreve é concreto: o Brasil não tem um sistema consolidado de revisão de condenações. Nos Estados Unidos, organizações como o Innocence Project documentam e litigam casos de condenações injustas desde 1992, e já obtiveram mais de 200 exonerações comprovadas por DNA. No Brasil, não existe equivalente institucionalizado, o que torna a tarefa de mapear esses casos dependente de jornalismo investigativo, iniciativas esparsas de defensorias públicas e, muitas vezes, pressão de familiares que não desistiram.
“A pesquisa é difícil porque o Brasil não tem uma tradição de revisão de casos que não tiveram resolução”, disse Casoy ao Pop Séries. A segunda temporada já está em desenvolvimento, o que indica que o material levantado durante a produção foi além do que cabia em 13 episódios.
O efeito CSI e o que o público passou a exigir
Casoy usa o termo “efeito CSI” para descrever uma mudança real no comportamento de júris e telespectadores: após décadas de séries policiais que popularizaram a perícia forense, o público passou a esperar por evidências mais robustas antes de aceitar uma condenação. Estudos conduzidos nos Estados Unidos a partir dos anos 2000 documentaram esse fenômeno em júris reais, com jurados exigindo provas científicas mesmo em casos onde o peso das evidências era circunstancial.
No Brasil, o impacto cultural de séries como Making a Murderer e The Staircase, ambas disponíveis em plataformas de streaming com boa penetração no país, criou uma audiência familiarizada com a ideia de que o sistema judicial pode errar de formas sistemáticas. Em Nome da Justiça chega para esse público com material local: erros cometidos aqui, por instituições que os espectadores reconhecem.
A pergunta que Casoy deixa no ar, “se era um erro, por que a investigação parou?”, é também a pergunta que a série não vai conseguir responder sozinha. Mas colocá-la em horário nobre, com casos brasileiros, é o primeiro passo para que ela deixe de ser retórica.
-
O Pop Séries é um portal de jornalismo cultural especializado em produções televisivas e no mercado de entretenimento mundial. Fundado com o objetivo de conectar o público às principais tendências do audiovisual, o site reúne críticas aprofundadas, análises de dramas televisivos, novidades de streaming e bastidores de seriados desenvolvidos globalmente — com ênfase em produções americanas, inglesas e no fortalecimento do cenário audiovisual nacional.
Com forte presença no circuito internacional de cultura pop, o veículo realiza coberturas jornalísticas in loco dos maiores eventos do mundo, como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, que acontecem anualmente nos Estados Unidos.
Desde 2014, consolidando sua autoridade de imprensa e credibilidade no mercado, o Pop Séries já trouxe mais de 150 entrevistas exclusivas e inéditas com criadores e elencos de elite de produções aclamadas, incluindo franquias globais como The Walking Dead, Doctor Who, Supernatural, The Flash e Cobra Kai.