Após aposentar Rambo, Sylvester Stallone vai estrelar novo filme ‘Samaritan’

A MGM fechou acordo com Julius Avery para dirigir Samaritan, thriller de super-herói estrelado por Sylvester Stallone. As filmagens estão previstas para começar no início de 2020, com produção da Balboa Productions, a empresa que Stallone fundou com Braden Aftergood.

Um herói sumido e o garoto que o procura

A premissa parte de uma ideia original: um adolescente investiga se um super-herói mítico, desaparecido há 20 anos após um evento trágico não especificado, continua vivo. A estrutura lembra menos os filmes de origem do universo Marvel e mais os thrillers de identidade oculta, como Unbreakable, de M. Night Shyamalan, em que o peso do heroísmo carrega ambiguidade moral.Sylvester Stallone, então com 73 anos, encarna o tipo de personagem que combina com sua fase atual: figuras desgastadas, carregando legado e cicatrizes. Foi exatamente o que funcionou em Creed (2015), que o devolveu às premiações após décadas de ostracismo crítico, incluindo uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante.

O roteiro é de Bragi F. Schut, conhecido pelo script de Escape Room (2019), estreia modesta que surpreendeu ao faturar US$ 155 milhões globais com orçamento estimado em US$ 9 milhões. A relação custo-retorno daquele projeto ajuda a entender por que a MGM apostou em Schut para uma produção que, embora não tenha orçamento divulgado, claramente mira o mercado de blockbusters de médio porte.

O diretor que detonou um castelo nazista

Julius Avery chegou ao projeto com um currículo pequeno, mas de impacto imediato. Seu Overlord (2018), produzido pela Bad Robot de J.J. Abrams, misturou terror e Segunda Guerra Mundial com um ritmo que conquistou a crítica especializada — 82% no Rotten Tomatoes — e rendeu US$ 41 milhões nas bilheterias mundiais com orçamento de US$ 38 milhões. Não foi um fenômeno de público, mas estabeleceu Avery como alguém capaz de equilibrar gênero, tensão e escala. Antes disso, seu curta Jonah havia vencido o Australian Academy Award em 2014, e o longa Son of a Gun (2014), com Ewan McGregor, abriu portas em Hollywood.

Avery não escondeu o entusiasmo no comunicado oficial: declarou que Sylvester Stallone é um herói pessoal e que o projeto é “muito especial”. A linguagem é a do press release padrão, mas a escolha de um diretor australiano de 40 anos para conduzir uma estrela de 70 diz algo sobre o que a MGM quer, um olhar externo sobre um ícone americano, a distância crítica que Avery trouxe ao nazismo em Overlord, aplicada agora ao mito do super-herói envelhecido.

O que esse filme significa para Sylvester Stallone

Samaritan marca a estreia oficial da Balboa Productions como produtora, e o nome não é casual. Rocky Balboa é o personagem que Stallone reescreveu por décadas, de azarão em 1976 a avô melancólico em Creed II (2018). Criar uma produtora com esse nome é uma declaração de identidade: Stallone quer controle criativo sobre o que faz daqui em diante.

O momento é relevante. Depois de décadas associado a franquias de ação pura, Os Mercenários, Rambo, Demolidor, Sylvester Stallone encontrou em Creed uma segunda vida crítica que abriu espaço para projetos mais complexos. Samaritan parece calculado para habitar esse novo território: não é um filme de ação convencional, é um thriller com camadas de mito, culpa e redescoberta.

A pergunta que o roteiro levanta, se o herói ainda existe, vale também como metáfora para o próprio ator. Poucos atores de sua geração ainda conseguem carregar esse tipo de ambiguidade em tela. Schwarzenegger não tentaria. Willis, àquela altura, já não conseguia mais. Sylvester Stallone, com Creed como prova, ainda consegue.

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