Cinebiografia de Michael Jackson encanta fãs, mas é um recorte da vida do cantor

O lançamento de Michael traz uma pergunta inevitável: estamos diante de uma biografia honesta ou um corte da história de Michael Jackson? Embora as imagens dirigidas por Antoine Fuqua sejam visualmente arrebatadoras, o roteiro de Graham King já levanta bandeiras vermelhas para quem esperava um retrato fiel da vida complexa do Rei do Pop. O filme foca intensamente na ascensão do gênio, mas parece fugir, das polêmicas que o definiram nos seus últimos anos.

A performance de Jaafar Jackson é, sem dúvida, o ponto alto. O sobrinho do astro não apenas mimetiza os passos de dança de Thriller, mas carrega no olhar a melancolia de um homem que nunca teve infância. No entanto, o filme comete o erro estratégico de eleger um “vilão de estimação”: Joe Jackson. Ao focar excessivamente nos abusos do patriarca, a produção tenta criar um escudo emocional para Michael, justificando todas as suas excentricidades futuras através do trauma. É uma escolha narrativa válida, mas incompleta para uma figura tão multifacetada.

O que realmente incomoda na estrutura de Michael é o que não está lá. Como contar a história de Michael Jackson sem mencionar a construção de Neverland sob a ótica das controvérsias? Como ignorar o nascimento de sua filha ou o uso problemático de substâncias controladas que culminou em sua morte precoce? O filme opta pelo caminho mais fácil, focando no talento “irrefutável e visionário” e nas performances icônicas, enquanto as acusações de assédio sexual — que paralisaram o mundo nos anos 90 e 2000 — parecem ter sido varridas para debaixo do tapete.

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Jaafar é sobrinho de Michael Jackson

A presença ostensiva da família Jackson na produção explica muito desse “filtro”. Embora isso garanta uma fidelidade estética impressionante, também retira a independência necessária para uma crítica social ou biográfica. O espectador é colocado em um lugar privilegiado na primeira fila, mas é uma fila onde só se pode olhar para onde a família permite.

É preciso dar crédito a Jaafar Jackson. Ao lado do jovem Juliano Valdi, que brilha como o pequeno Michael no The Jackson 5, a evolução técnica do artista é mostrada de forma grandiosa. A ambição criativa e a busca pela perfeição são temas que Fuqua sabe manipular com maestria, criando sequências de tirar o fôlego que certamente levarão multidões aos cinemas em 23 de abril.

Contudo, para o público mais exigente, fica o gosto amargo de uma oportunidade perdida. Michael tinha tudo para ser a cinebiografia definitiva, o estudo de personagem mais complexo do século XXI. Em vez disso, o que o trailer entrega é um espetáculo de nostalgia que prefere proteger a marca “Michael Jackson” do que explorar a humanidade do homem por trás da máscara. No fim das contas, o filme parece mais preocupado em manter o legado de pé do que em contar a verdade, por mais dura que ela seja.

A trajetória polêmica de Michael Jackson

A história de Michael Jackson é, em si, um épico. Nascido em Gary, Indiana, em 1958, ele iniciou sua jornada musical ainda criança, como vocalista principal do Jackson 5, ao lado de seus irmãos. O grupo rapidamente se tornou um fenômeno da Motown, com sucessos estrondosos como I Want You Back e ABC.

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A transição para a carreira solo, no final dos anos 70, marcou o nascimento de uma lenda. Colaborando com o produtor Quincy Jones, Michael lançou o álbum Off the Wall (1979), que misturava pop, disco e R&B com uma energia contagiante. No entanto, foi com Thriller (1982) que o artista alcançou um patamar inédito. Considerado até hoje o álbum mais vendido da história, o álbum não apenas produziu hits globais (Billie Jean e Beat It), mas também revolucionou a indústria da música ao transformar o videoclipe em uma forma de arte cinematográfica.

Nos anos seguintes, álbuns como Bad (1987) e Dangerous (1991) solidificaram seu status como o Rei do Pop. Suas performances inovadoras, o moonwalk, a luva cravejada e sua capacidade de mobilizar multidões em turnês globais estabeleceram um padrão de excelência no entretenimento que perdura até hoje. A cinebiografia, ao revisitar essa trajetória de triunfo e transformação, promete ser um tributo à sua genialidade musical e ao seu impacto cultural duradouro.

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