Billy Porter, estrela de Pose, confirmou que aceitou o convite para integrar a refilmagem musical de Cinderela, produzida pela Sony Pictures. Se o acordo for finalizado, Porter vai interpretar a fada madrinha da protagonista vivida por Camila Cabello.
A Cinderela que veio do programa de entrevistas
O projeto tem uma origem incomum: a ideia partiu de James Corden, apresentador do The Late Late Show, que desenvolveu o conceito e trouxe a Sony para viabilizá-lo. Camila Cabello entrou oficialmente em abril de 2019 como protagonista e também como parte criativa da trilha sonora, o que indica um filme construído em torno da carreira musical dela, não apenas da atriz.
Kay Cannon, contratada para escrever e dirigir, não é uma estreante no gênero. Ela criou a franquia Pitch Perfect, responsável por arrecadar mais de 115 milhões de dólares só com o primeiro filme em 2012, e dirigiu a comédia Blockers em 2018, bem recebida pela crítica por subverter clichês do gênero. A escolha de Cannon sinaliza um tom mais próximo da comédia musical contemporânea do que das adaptações da Disney dos anos 1990.
A versão anterior mais conhecida do estúdio foi Cinderela com Drew Barrymore, de 1998, mas o ponto de comparação mais direto aqui é o especial televisionado da Rodgers & Hammerstein com Whitney Houston e Brandy, de 1997, que também apostou em um elenco diverso e musical. A Sony claramente quer esse espaço.
O que Billy Porter traz para além do figurino
A escalação de Billy Porter como fada madrinha não é uma escolha aleatória de visibilidade. Em Pose, série da FX criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals, o ator interpreta Pray Tell, o mestre de cerimônias da cena ballroom de Nova York nos anos 1980 e 1990. A atuação rendeu a ele o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática em 2019, tornando-o o primeiro homem gay abertamente assumido a vencer a categoria em toda a história do prêmio. A série foi uma aposta arriscada da FX ao colocar atores transgêneros negros em papéis centrais, com elenco que incluiu Mj Rodriguez, Indya Moore e Dominique Jackson, e se tornou um marco de representatividade documentado pela crítica especializada.
Ao assumir um papel tradicionalmente feminino sem que o roteiro precise justificar isso com uma reviravolta de gênero, Billy Porter estende para o cinema mainstream uma lógica que Pose estabeleceu na televisão a cabo: a identidade do personagem não precisa ser o conflito. É uma distinção sutil, mas determina o tipo de filme que Cinderela pretende ser.
Porter ainda estava confirmado para retornar à terceira temporada de Pose e para a comédia Like a Boss, da Paramount, com Tiffany Haddish, Salma Hayek e Rose Byrne, prevista para 2020. A agenda indica uma transição deliberada para o cinema após o reconhecimento televisivo, caminho semelhante ao que Sandra Oh fez após Grey’s Anatomy e que levou a Killing Eve.
O que o elenco diz sobre o filme
Cinderela não é uma produção da Disney e, portanto, não carrega o peso de proteger um legado específico. Isso dá à Sony margem para tomar decisões que a Disney dificilmente tomaria na mesma época, como escalar um homem negro e queer para o papel de fada madrinha sem fazer disso um ponto de marketing explícito.
Cabello, na época com três indicações ao Grammy e o hit “Havana” ainda em rotação intensa no streaming, garante apelo comercial imediato ao projeto. A combinação dela com Billy Porter cria uma dinâmica de gerações: a estrela pop jovem e o ator premiado que chegou tarde ao reconhecimento, aos 49 anos. Se o filme funcionar, vai dever tanto à visibilidade de um quanto à credibilidade do outro.

