Coisa Mais Linda: 2ª temporada acompanha jornada de superação e libertação das protagonistas

A segunda temporada de Coisa Mais Linda estreia em 19 de junho na Netflix, dando continuidade à história das quatro mulheres que tentaram reescrever seus destinos no Rio de Janeiro dos anos 1960, ao som da bossa nova.

A primeira temporada, lançada em 2019, foi uma das produções originais brasileiras de maior repercussão da plataforma naquele ano, consolidando um nicho de dramaturgia de época com protagonismo feminino que a Netflix Brasil vinha testando desde Samantha!. A série foi criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth, com direção de Caito Ortiz, e acumulou elogios pela reconstituição de período e pela forma como articulou questões de gênero sem anacronismo forçado. A renovação para uma segunda temporada foi confirmada ainda em 2019, mas a produção enfrentou atrasos que empurraram a estreia por mais de um ano.

O peso das conquistas

Nesta temporada, Maria Luiza, vivida por Maria Casadevall, paga o preço dos avanços que conquistou na primeira leva de episódios. Em entrevista ao Pop Séries, Casadevall descreve uma personagem que recua para um lugar de passividade dentro da família após sofrer violência como consequência direta de suas escolhas. “Ela fez grandes avanços e viveu uma situação de violência por conta dessas conquistas”, diz a atriz. O arco, segundo ela, é de retomada gradual: “Com o passar dos episódios, ela vê que esse é um lugar que ela não cabe mais.”

É o tipo de construção que diferencia Coisa Mais Linda de boa parte das produções de época brasileiras. Em vez de progredir linearmente em direção à emancipação, as personagens retrocedem, negociam e se contradizem, o que dá ao roteiro mais textura do que o formato convencional costuma permitir.

Adélia, interpretada por Pathy Dejesus, abre a temporada em transformação: casa-se com o Capitão, reencontra o pai e aceita a presença de Nelson na vida da filha Conceição. Dejesus define a personagem a partir de sua resistência silenciosa: “A Adélia vem de um lugar de força. Ela toma bordoada, mas engole o choro.” E completa que a temporada aprofunda esse interior: “Ela tem sim suas questões e sua sensibilidade.”

Quem está atrás e na frente das câmeras

Mel Lisboa, que interpreta Thereza, descreve um movimento parecido com o das outras protagonistas: a personagem começa priorizando a família, mas uma oportunidade no rádio surge como ponto de virada. “Há um aprofundamento da questão de todas as personagens. Você sai do estereótipo e mostra fragilidades e vulnerabilidades”, afirma a atriz, que acumula longa trajetória na televisão brasileira e encontrou em Coisa Mais Linda um dos trabalhos mais comentados de sua fase adulta.

A novidade do elenco é Larissa Nunes, que entra como Ivone, irmã de Adélia, cantora jovem tentando se impor numa indústria dominada por homens. Nunes, conhecida do público pelo trabalho em Malhação, traz para o papel uma camada que a temporada anterior não explorou com a mesma profundidade: a experiência do jovem negro de classe baixa naquele período. “É uma visão do jovem negro daquela época, diferente das mocinhas dos anos 60, que eram todas fofas e super protegidas”, explica a atriz. A personagem carrega uma consciência de si que não é ingênua, mas também não é sem custo: “Eu sei o meu lugar e sei as dificuldades que eu vou viver quando assumo os meus sonhos.”

O que a segunda temporada precisa provar

O contexto de produção é desafiador. A estreia chega com mais de um ano de espera em relação ao que o público esperava, num momento em que a Netflix Brasil aumentou significativamente o volume de originais e a atenção do espectador se fragmentou. Coisa Mais Linda precisa recuperar sua base sem depender da surpresa que funcionou na estreia.

O que a temporada tem a seu favor é a profundidade dos arcos prometidos pelas próprias atrizes: personagens que ficaram redondas o suficiente na primeira fase para suportar contradições reais na segunda. Se o roteiro cumprir o que o elenco antecipa, a série pode confirmar o que a primeira temporada apenas esboçou: que dá para fazer drama de época brasileiro com ambição narrativa de longo prazo.

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