A Netflix reuniu elenco e imprensa em São Paulo para apresentar Coisa Mais Linda, série original brasileira que estreia na plataforma no dia 22 de março. A produção é uma das apostas da Netflix para consolidar seu catálogo nacional, num momento em que o streaming investe pesado em conteúdo local, após o sucesso de 3%, que rendeu quatro temporadas e colocou o Brasil no radar das produções internacionais da plataforma.
Rio de Janeiro, anos 60, e um bar como campo de batalha
A série acompanha Maria Luiza, a Malu, interpretada por Maria Casadevall, uma jovem paulistana de família abastada que se muda para o Rio de Janeiro com o marido para abrir um restaurante. Ao descobrir que ele abandonou o projeto e desapareceu, ela decide ficar e transforma o espaço em um bar de música. O pano de fundo é o Rio dos anos 1960, período em que a Bossa Nova emergia como movimento cultural e o país vivia uma euforia democrática que duraria pouco, já que o golpe militar de 1964 está logo adiante na linha do tempo.
Esse contexto histórico não é decorativo. A escolha do período permite à série trabalhar a contradição entre efervescência cultural e rigidez social, especialmente para as mulheres. O bar de Malu funciona como microcosmo: um espaço de liberdade criativa inserido numa cidade, e num país, que ainda tratava a independência feminina como desvio.
A trama se apoia em quatro protagonistas com trajetórias distintas e deliberadamente complementares. Adélia, vivida por Pathy Dejesus, é uma mulher negra moradora de favela que se torna braço direito de Malu na gestão do bar. Thereza, interpretada por Mel Lisboa, é jornalista, feminista antes do termo virar corrente, e enfrenta redações que nem sequer consideravam mulheres como profissionais de verdade. Lígia, papel de Fernanda Vasconcellos, começa como o arquétipo da esposa submissa e vai, ao longo da temporada, questionando as regras do casamento e da moral burguesa que a aprisionam.
Quatro atrizes e uma proposta que recusa o simplismo
O elenco principal reúne nomes com trajetórias sólidas na televisão e no cinema brasileiros. Maria Casadevall é conhecida do público pelo trabalho em I Love Paraisópolis e Dupla Identidade, ambas na Globo. Mel Lisboa tem carreira extensa, com destaque para a novela Mulheres Apaixonadas e participações em produções cinematográficas. Pathy Dejesus vinha de trabalhos no teatro e séries menores antes de Coisa Mais Linda, que representou um salto de visibilidade significativo para a atriz. Fernanda Vasconcellos acumulava créditos em novelas como Sangue Bom e A Vida da Gente.
No evento de apresentação, Fernanda Vasconcellos foi direta ao rebater uma leitura que a série poderia facilmente provocar: a de que os homens são os antagonistas da história. “O inimigo é o preconceito, o jeito de se relacionar com uma estrutura social pré-estabelecida. É isso que entra em conflito direto com as questões que estão sendo discutidas.” A distinção importa porque evita que a série escorregue para o didatismo fácil, em que personagens masculinos existem apenas para ser obstáculos.
A equipe criativa reforça o ponto. Coisa Mais Linda foi desenvolvida com roteiro de Giulia Amato e Heather Roth, e direção de Julia Rezende, cineasta com experiência em longas como Eu Fico Loco. A presença feminina atrás das câmeras não é acidental: a produção, da O2 Filmes, foi concebida para que o olhar sobre essas mulheres viesse, em grande parte, de outras mulheres.
O que a série coloca em perspectiva
Coisa Mais Linda chega num momento em que produções de época ambientadas no Brasil ainda são raridade no streaming. A recriação do Rio dos anos 60, com figurinos, trilha e locações que evocam a estética da Bossa Nova, exigiu um investimento de produção incomum para séries nacionais de plataforma. O resultado posiciona a série num território que séries brasileiras raramente ocupam: o da reconstituição histórica com ambição visual.
Se a execução corresponde à proposta, Coisa Mais Linda pode fazer pelo Brasil dos anos 60 algo parecido com o que Vinyl tentou fazer pelo rock novaiorquino dos anos 70. A diferença é que aqui as protagonistas são as que a história oficial costuma deixar de fora.
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