Ghostbusters: Afterlife chegou aos cinemas em novembro de 2021 carregando um peso duplo: reabilitar uma franquia que havia tropeçado em 2016 e honrar Harold Ramis, morto em fevereiro de 2014 aos 69 anos após complicações de uma vasculite autoimune. O filme de Ivan Reitman para o reboot feminino de 2016, Ghostbusters: Answer the Call, custou US$ 144 milhões e arrecadou US$ 229 milhões globalmente — números que parecem razoáveis até você lembrar que a Sony projetava muito mais e o filme se tornou centro de uma guerra cultural que envenenou a recepção antes mesmo da estreia.
O que Afterlife faz de diferente com a herança da franquia
Jason Reitman, filho de Ivan e diretor de Juno e Amor sem Escalas, tomou uma decisão narrativa que define tudo: ignorar o reboot de 2016 e tratar os filmes originais de 1984 e 1989 como cânone absoluto. A história começa com a morte de Egon Spengler (o personagem de Ramis) numa fazenda remota em Summerville, Oklahoma, e constrói toda a sua mitologia a partir dessa perda.
Callie (Carrie Coon) é a filha que Egon abandonou, ressentida e sem dinheiro, que herda a propriedade sem entender por quê. Seus filhos, Trevor (Finn Wolfhard, já conhecido do público de Stranger Things) e Phoebe (Mckenna Grace), chegam ao interior sem expectativas e encontram um laboratório secreto, armadilhas intactas e um Ecto-1 enferrujado na garagem. Paul Rudd interpreta Gary Grooberson, professor substituto e sismólogo amador que percebe que a região registra tremores sem fonte geológica explicável.
A estrutura lembra deliberadamente a dinâmica de E.T. e Os Goonies: crianças descobrindo algo grande demais para adultos acreditarem, numa cidade pequena onde ninguém presta atenção nos sinais. Jason Reitman admitiu em entrevistas que o modelo era Stranger Things tanto quanto os filmes originais, o que explica a escala mais contida e o tom de coming-of-age sobreposto ao horror cômico.
A família Reitman e o peso de continuar o próprio legado
Ivan Reitman dirigiu o Ghostbusters original em 1984 com um orçamento de US$ 30 milhões. O filme arrecadou US$ 295 milhões só nos Estados Unidos, um dos maiores sucessos do ano, atrás apenas de Indiana Jones e o Templo da Perdição e de Gremlins. A trilha sonora de Ray Parker Jr. chegou ao número um nas paradas e ficou por três semanas. A sequência de 1989 repetiu a fórmula com menos força criativa, mas ainda assim arrecadou US$ 215 milhões globalmente.
Afterlife custou US$ 75 milhões e faturou US$ 129 milhões mundialmente, desempenho afetado pela pandemia, já que o lançamento havia sido adiado do verão de 2020 para novembro de 2021. A recepção crítica ficou em torno de 69% no Rotten Tomatoes, com elogios à performance de Mckenna Grace e críticas à dependência excessiva de nostalgia no terceiro ato. Essa última parte — que traz de volta os Caça-Fantasmas originais numa sequência que usa tecnologia de rejuvenescimento digital para incluir Ramis como Egon — dividiu o público de forma clara entre comoção genuína e desconforto com a instrumentalização da morte do ator.
O que significa para quem cresceu com os originais
O Ecto-1, as mochilas de prótons e os Mini-Pufts (versão miniaturizada e caótica do Marshmallow Man) funcionam como pontes entre gerações sem simplesmente repetir o que já existia. A escolha de colocar Phoebe como protagonista intelectual, herdeira direta da lógica científica de Egon, desloca o centro emocional da franquia do grupo para o indivíduo.
O resultado é um filme que funciona melhor como despedida do que como reinício — algo próximo do que Creed fez com Rocky, passando o bastão sem apagar quem veio antes. Uma continuação direta, Ghostbusters: Frozen Empire, foi lançada em março de 2024 com parte do mesmo elenco, o que confirma que a Sony encontrou a fórmula que estava procurando desde 2016.

