Manhãs de Setembro estreia no Amazon Prime Video em 25 de junho com cinco episódios de cerca de trinta minutos cada. A série acompanha Cassandra, mulher trans que construiu uma vida independente em São Paulo, até o momento em que Leide aparece com Gersinho, um menino de dez anos que ela afirma ser filho da protagonista. A premissa é de drama familiar, e o tom é deliberadamente distante do que o audiovisual brasileiro costuma entregar quando o assunto é transexualidade.
Uma trans protagonista sem o peso do martírio
Cassandra trabalha como motogirl, tem relacionamento estável, acabou de alugar a própria casa e conta com uma rede de apoio consistente. A série não ignora que o mundo é violento com mulheres trans, mas recusa o martírio como ponto de partida narrativo. É uma escolha que distingue Manhãs de Setembro de boa parte da produção nacional e internacional sobre o tema: enquanto séries como Pose (FX) construíam identidade trans em oposição constante à hostilidade externa, a série brasileira parte de uma personagem que já chegou a algum lugar.
Permeando toda a trama está a figura da cantora Vanusa, ícone da MPB dos anos 1960 e 70, que aparece como voz da consciência de Cassandra. Segundo Liniker, que vive a protagonista, Vanusa funciona como um porto seguro emocional para a personagem, “um colo diante de todas as violências que ela sofre”. A escolha de Vanusa, e não de um símbolo mais óbvio da cultura LGBTQIA+, diz algo sobre o tipo de brasilidade que a série quer construir.
Liniker, uma co-roteirista trans e dublagens em 200 países
Liniker já era referência na música brasileira antes de Manhãs de Setembro, mas a série representa sua estreia como protagonista em ficção televisiva de peso. A atriz disse que a personagem a ajudou a “desejar como há muito tempo não desejava”, e que Cassandra lhe deu coragem para marcar espaço numa indústria que raramente reserva esse lugar para mulheres trans negras.
A construção do roteiro teve cuidado estrutural nesse sentido. Alice Marcone, mulher trans, dividiu a escrita com a equipe, o que, segundo Liniker, criou um ambiente de trabalho mais seguro e preciso para a personagem. Não é detalhe menor: produções sobre minorias escritas por pessoas de fora do grupo costumam acumular críticas exatamente pelo tipo de deslize que a presença de Marcone ajudou a evitar.
A série foi gravada no Uruguai, não em São Paulo onde a trama se passa, por causa das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Essa logística de produção transfronteiriça, comum no período 2020-2021, não comprometeu a ambientação, segundo a equipe. O elenco reúne Thomás Aquino, Gustavo Coelho no papel de Gersinho, Karine Teles, Paulo Miklos e Gero Camilo, com participação especial de Linn da Quebrada. Quando a série chegar às plataformas internacionais, as dublagens em mais de 200 países serão feitas por mulheres trans, uma política que o Amazon adotou para manter a coerência de representação além das fronteiras.
O que a série muda no mapa da ficção trans brasileira
O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, dado que aparece com regularidade nos relatórios da Transgender Europe. Manhãs de Setembro não ignora esse contexto, mas, como Liniker disse durante a divulgação, aposta na ideia de que “nós podemos ser humanizadas e dignificadas”, e que a responsabilidade do audiovisual é criar novos olhares. É uma declaração de intenção que vai além da série em si.
Para o espectador, Manhãs de Setembro oferece algo raro: uma protagonista trans cujo arco não depende de sobreviver à transfobia, mas de lidar com maternidade inesperada, vínculos afetivos antigos e o custo de uma liberdade conquistada com esforço. Em cinco episódios, a série tem pouco espaço para desperdício. Se conseguir sustentar essa proposta até o final, vai estabelecer um parâmetro difícil de ignorar para qualquer produção que venha depois.

