Dom estreia nesta sexta-feira (4) no Amazon Prime Video com uma vantagem rara: uma história real que parece roteiro de ficção, mas que o próprio roteiro precisou conter para não parecer exagero.
A dualidade que está no DNA da série
Pedro Dom, nome pelo qual Luiz Victor Lomba ficou conhecido, foi um dos assaltantes mais procurados do Rio de Janeiro no início dos anos 2000. O que tornava o caso singular não era a audácia dos crimes, mas o perfil do criminoso: jovem de classe média alta, olhos azuis, filho de um agente da Polícia Federal que havia passado décadas combatendo o tráfico de cocaína no Brasil, especialmente durante os anos 1970. Victor Dantas, o pai, dedicou a vida a barrar a entrada da droga no país. O filho se tornou dependente químico e assaltante para sustentar o vício. Essa inversão não é metáfora, é o eixo factual da série.
O roteiro foi construído a partir de três fontes: o livro Beijo da Bruxa, escrito pelo próprio Victor Dantas sobre sua trajetória; o livro Dom, de Tony Bellotto; e relatos pessoais que o próprio pai concedeu ao diretor Breno Silveira ao longo de anos de convivência. Victor foi diagnosticado com câncer de pulmão durante o processo criativo e morreu antes de ver a série lançada. Nos últimos meses, ainda internado, enviava a Silveira textos de 20 ou 30 páginas com memórias que nunca havia publicado. “Era o que ele sentia pelo filho e como eles se amavam”, disse o diretor.
Breno Silveira, Gabriel Leone e a construção de um protagonista difícil de odiar
Silveira conheceu Victor Dantas há cerca de 12 anos, quando o ex-policial insistiu para ser recebido na Conspiração Filmes, produtora responsável pela série. O diretor tem experiência consolidada no cinema nacional, com filmes como Era uma Vez… (2008) e 2 Filhos de Francisco (2005), um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro, com mais de 5 milhões de espectadores. Para Dom, ele enxergou desde o início que o ponto central não era o crime, mas a relação entre duas figuras que, mesmo em lados opostos, compartilhavam o mesmo apetite por adrenalina.
Gabriel Leone, que o público conhece de trabalhos como Verdades Secretas e O Negócio, foi escolhido para o papel do protagonista por uma razão específica: o sorriso. Silveira buscava alguém cuja presença carregasse simpatia genuína, porque Pedro Dom era descrito por pessoas próximas de formas completamente opostas. Alguns relatavam experiências traumáticas. Outros sorriam ao lembrar dele. Leone aproveitou essa ambiguidade como matéria de trabalho, priorizando gestos e silêncio em cenas que, numa produção menor, provavelmente teriam sido resolvidas com diálogo.
As gravações duraram quatro meses e foram feitas inteiramente em locações reais, sem sets construídos. Para cobrir os diferentes períodos da narrativa, três favelas distintas foram utilizadas: uma para recriar o Rio dos anos 1970, outra para representar as comunidades contemporâneas e uma terceira exclusivamente para as sequências de ação. Uma das cenas de baile funk mobilizou cerca de 400 figurantes, o que dá a escala do que Silveira estava construindo.
Flávio Tolezanic, conhecido do público por Verdades Secretas, interpreta Victor Dantas. O ator admitiu a pressão de dar rosto a um personagem real, mas destacou que o roteiro detalhado funcionou como âncora durante as gravações.
O que Dom representa para a ficção brasileira no streaming
A Amazon investe em produções originais brasileiras pelo menos desde Seis Dias Correndo com a Morte (2018) e O Mecanismo (2018), mas Dom chega como uma das apostas de maior escala da plataforma no país, tanto em produção quanto em ambição narrativa. A série não trata de tráfico como pano de fundo, como tantas produções nacionais fizeram, mas coloca a relação paterno-filial no centro e usa o crime como o campo onde essa relação se destroça. É uma distinção que muda o que o espectador está assistindo. Quem entrar esperando uma série policial vai encontrar algo mais próximo de um drama familiar de época com muita cocaína no meio, no melhor sentido possível.

