O Homem da Sua Vida: série explora o universo dos relacionamentos amorosos

O canal HBO estreia neste domingo (8), às 21h, O Homem da Sua Vida, série brasileira baseada em produção original argentina. O Pop Séries esteve no lançamento e conversou com os atores Augusto Madeira e Ângela Dip sobre o projeto.

Hugo, o homem que vira quem você precisar que ele seja

A série acompanha Hugo, um homem de meia-idade desempregado e endividado que aceita um convite da prima Glória, vivida por Ângela Dip: trabalhar em uma agência de encontros. A função dele não é a de um consultor comum. Hugo se torna uma espécie de coringa do homem ideal, construindo personagens sob medida para atender aos desejos e expectativas das clientes. A cada episódio, ele incorpora um perfil diferente, o que coloca em movimento tanto os traumas que carrega quanto questões morais que o roteiro não trata com leveza.

“A trama é sobre afetividade”, resume Augusto Madeira. “Hugo vai descobrir que tem uma vocação para ajudar essas mulheres. Mas ele também se envolve com pessoas muito próximas do seu cotidiano e coloca a própria vida em risco em algumas situações.” O personagem ainda tenta sustentar o filho enquanto navega por dilemas éticos em um ambiente que, por definição, opera nas zonas cinzentas das relações humanas.

Ângela Dip, conhecida do público televisivo por papéis em Malhação e por sua passagem pela Record, assume aqui um registro diferente do que construiu na TV aberta. Gloria não é uma personagem de suporte: ela é o catalisador que tira Hugo do imobilismo e define as regras do jogo moral que a série vai explorar. A dinâmica entre os dois funciona como eixo da trama, e a escolha de escalar uma atriz com essa trajetória específica sinaliza a aposta da produção em familiaridade sem obviedade.

O diretor que só assistiu ao original uma vez, de propósito

A adaptação brasileira é dirigida por Daniel Rezende, montador premiado que trabalhou em Cidade de Deus e Tropa de Elite antes de migrar para a direção. Em séries, já assinou episódios de 3%, a primeira produção original brasileira da Netflix, lançada em 2016, que abriu caminho para o mercado de séries nacionais em plataformas internacionais. A trajetória de Rezende é marcada por projetos que lidam com tensão social sem abandonar o ritmo, o que o coloca em posição adequada para o equilíbrio que O Homem da Sua Vida exige.

Para a adaptação, Rezende adotou uma estratégia deliberada de distanciamento da fonte. “Eu assisti à série apenas uma vez e depois li somente os roteiros. Foi uma grande responsa”, contou. A decisão evita que a versão brasileira se torne uma cópia funcional do original argentino e dá margem para que ela construa sua própria identidade de ritmo e tom. A série argentina original, produzida pelo canal El Trece, ficou no ar por duas temporadas e teve recepção sólida no mercado de língua espanhola, mas circulou pouco no Brasil, o que torna a comparação direta improvável para a maior parte do público local.

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Rezende classifica o resultado como uma “dramédia”. “É uma mistura de drama e comédia com tons de ironia”, define o diretor. Esse equilíbrio é tecnicamente o ponto mais difícil do formato: comédia demais esvazia o peso dos traumas de Hugo, drama demais transforma o conceito de homem ideal por encomenda em algo pesado demais para sustentar vários episódios.

O que O Negócio deixou como referência

A HBO tem histórico consistente com ficção brasileira adulta que não evita desconforto temático. O Negócio, série do canal que acompanhou prostitutas de luxo em Brasília por quatro temporadas entre 2013 e 2018, mostrou que há audiência local para esse tipo de narrativa. A última temporada da série registrou crescimento de público em relação à anterior, o que sustentou a renovação mesmo com um tema que afastaria anunciantes em outros contextos. O Homem da Sua Vida opera em território próximo: um homem que vende versões de si mesmo para mulheres que pagam pela ilusão do parceiro perfeito é, no fundo, uma história sobre performance, solidão e o que as pessoas estão dispostas a fingir que não sabem.

A produção original argentina chega ao Brasil sem capital de nostalgia ou expectativa prévia acumulada, o que significa que a série vai ser julgada pelo que entrega, não pelo que promete. Se Rezende encontrar o equilíbrio que descreve, O Homem da Sua Vida tem condições de funcionar como O Negócio funcionou: menos pelo conceito provocador e mais pela construção de personagens que o público acompanha apesar, ou por causa, das escolhas moralmente questionáveis que fazem.

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