No Brasil, elenco de ‘Hemlock Grove’ discute aceitação do bizarro

Hemlock Grove estreou na Netflix em abril de 2013 como uma das primeiras apostas originais do serviço para o gênero de horror. A segunda temporada, lançada em julho de 2014, chegou ao Brasil com todos os dez episódios disponíveis de uma vez, mantendo o modelo de consumo que a plataforma havia consolidado com House of Cards e Orange is the New Black no ano anterior.

O monstro como espelho

A série se passa em Hemlock Grove, cidade fictícia da Pensilvânia onde lobisomens, vampiros e criaturas não classificáveis dividem espaço com segredos familiares e tensões de classe. O diferencial em relação a outras produções sobrenaturais do período, como Penny Dreadful e The Strain, está na recusa ao sobrenatural ornamental. Aqui, a transformação em lobisomem é visceral, longa e desconfortável. O efeito foi desenvolvido ao longo de toda a temporada de forma integrada, algo possível justamente porque a Netflix filma todos os episódios antes do lançamento. Esse modelo permitiu ainda que cenas fossem gravadas fora de ordem cronológica, dando à equipe de efeitos especiais tempo para construir sequências sem os cortes impostos pelo calendário televisivo tradicional.

A inspiração declarada do produtor executivo Eli Roth é Twin Peaks: ele queria algo entre o realismo e a novela, um território onde o bizarro fosse tratado com seriedade. “O que me interessa no show é como ser um monstro. Como é lutar contra os seus demônios interiores?”, disse Roth ao Pop Séries. Roth, conhecido por dirigir Hostel (2005) e por seu papel em Bastardos Inglórios (2009), assinou apenas um episódio da série, mas esteve presente como produtor em todas as fases de produção.

A série é baseada no romance homônimo de Brian McGreevy, publicado em 2012. McGreevy também assinou o roteiro da adaptação, o que ajuda a explicar a fidelidade a certos detalhes, incluindo o figurino de Olivia Godfrey, personagem central vivida por Famke Janssen.

Famke Janssen e o guarda-roupa como personagem

Janssen, conhecida pelo papel de Jean Grey na franquia X-Men, entrega na segunda temporada uma Olivia em colapso. A personagem perde o controle que definia sua presença na primeira temporada, oscilando entre fragilidade emocional e crueldade. “Conhecemos uma pessoa diferente que ora é emocional, ora maldosa”, descreveu a atriz. A mudança se reflete no figurino: o branco que marcou Olivia na primeira temporada, escolha fundamentada no livro como símbolo de sua necessidade de atenção, dá lugar ao preto na segunda, refletindo sua desestabilização.

A novata Maddie Hasson, que havia aparecido em The Following, integra o elenco como Miranda Cates, personagem que chega a Hemlock Grove por acidente e se envolve na relação entre Peter Rumancek e Roman Godfrey. Maddie Brewer, que o público conhecia de Orange is the New Black, também aparece na temporada. Brewer relatou a dificuldade prática de contracenar com bebês gêmeos, que se alternavam nas gravações. “Na primeira cena com eles, tive que amamentá-los. E eles estavam gritando pela mãe”, contou. A atriz tinha 22 anos durante as filmagens.

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Elenco de Hemlock Grove (© Netflix)

A primeira temporada foi lançada com todos os 13 episódios disponíveis simultaneamente, em abril de 2013. Na época, a Netflix não divulgava dados de audiência, mas a renovação para uma segunda temporada veio em maio do mesmo ano, menos de um mês após a estreia. O ritmo de renovação indicou desempenho acima do esperado para uma série de horror com orçamento e elenco modestos em comparação com produções de cabo como True Blood.

A terceira temporada foi produzida e lançada em outubro de 2015, também com dez episódios, o que confirmou a continuidade do interesse da plataforma. Foi a temporada final: a Netflix encerrou a série sem anunciar publicamente os motivos. Eli Roth havia listado Jennifer Lawrence, Josh Brolin e Brad Pitt como participações dos sonhos para uma possível continuação, o que dá a medida da ambição que o produtor tinha para o projeto e do quanto a série ficou aquém desse alcance.

  • julia benvenuto foto No Brasil, elenco de 'Hemlock Grove' discute aceitação do bizarro

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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