Arrow encerrou suas oito temporadas em janeiro de 2020 com um número que resume bem o seu legado: a série foi o ponto de partida de um universo televisivo que chegou a ocupar cinco noites da grade da CW simultaneamente, algo sem precedente na história da emissora.
A série que reinventou o herói na TV
Quando estreou em outubro de 2012, Arrow não tinha a missão explícita de criar um universo compartilhado. A CW queria apenas repetir o sucesso de Smallville, que manteve a emissora relevante por uma década inteira. O piloto de Arrow foi assistido por 4,1 milhões de pessoas, o melhor resultado de estreia da CW em quatro anos. A emissora percebeu rapidamente que tinha algo maior em mãos.
A proposta inicial era deliberadamente sombria: Oliver Queen (Stephen Amell) não usava poderes, não voava e não tinha sede de reconhecimento. Ele tinha uma lista. O tom noir, inspirado visivelmente no trabalho de Christopher Nolan com o Batman, diferenciava Arrow de qualquer adaptação de quadrinhos que a TV havia tentado antes. Greg Berlanti, Marc Guggenheim e Andrew Kreisberg, os criadores, apostaram em um protagonista moralmente ambíguo num momento em que os super-heróis na televisão ainda eram tratados como produto infantil.
Amell era um ator de trajetória modesta antes da série, com participações em Hung e Private Practice. Arrow o transformou em nome reconhecível no circuito de convenções e abriu caminho para que ele protagonizasse o filme Code 8 (2019) e sua sequência em 2023. A série também lançou Emily Bett Rickards, que entrou como personagem recorrente na primeira temporada e terminou como protagonista co-creditada. Rickards chegou a deixar o elenco antes do final e retornou especificamente para o encerramento da história de Felicity.
O arco de Oliver e o peso de oito anos
A trajetória de Oliver Queen ao longo das temporadas reflete as próprias tensões internas da produção. As duas primeiras temporadas são consideradas pela crítica as mais consistentes, com a introdução de Slade Wilson (Manu Bennett) como antagonista e um arco narrativo coeso. A partir da quarta temporada, quando a série introduziu magia e ressurreição com o vilão Damien Darhk, parte do público reagiu negativamente à quebra do tom realista que havia definido o programa. A audiência, que chegou a 3,8 milhões na terceira temporada, caiu para menos de 1,5 milhão nas temporadas finais, reflexo direto dessa fragmentação de identidade.
O crossover Crise nas Infinitas Terras, exibido entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020, funcionou como um acerto de contas narrativo. Oliver morre no primeiro episódio do evento e retorna transformado no Espectro, uma figura cósmica que literalmente reconstrói o universo. É uma saída grandiosa para um personagem que começou atirando flechas em executivos corruptos, e a produção claramente investiu nisso: o crossover reuniu atores de Smallville, como Tom Welling e Erica Durance, além de Brandon Routh como Superman de uma realidade alternativa, criando uma conversa explícita com dez anos de tentativas anteriores de adaptação da DC na televisão.
O que fica depois do Arqueiro
O legado mais concreto de Arrow não é a própria série, mas o que ela tornou possível. The Flash, Legends of Tomorrow, Supergirl e Batwoman existem porque Arrow provou que o público de TV aceitava super-heróis em formato seriado com continuidade longa e mitologia densa. The Flash chegou a 5,9 milhões de espectadores em sua estreia em 2014, número que Arrow nunca havia alcançado, mas que só era possível porque a audiência já estava construída.
A promessa de uma série focada em Mia Smoak no futuro nunca se concretizou: a CW encomendou um piloto em 2020, mas o projeto foi abandonado. O Arrowverse em geral entrou em colapso gradual nos anos seguintes, com Batwoman, Legends of Tomorrow e Supergirl canceladas entre 2022 e 2023. The Flash terminou em sua nona temporada no mesmo ano.
Arrow durou o suficiente para ver o universo que criou nascer, crescer e começar a declinar. Poucos programas de super-heróis podem dizer o mesmo.
-
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.