Com temática na paranoia, 4ª temporada de ‘PSI’ estreia dia 24 na HBO

A quarta e última temporada de PSI estreia neste domingo (24), às 21h, no canal HBO. São 10 episódios para encerrar uma das séries brasileiras mais incomuns da televisão por assinatura, aquela em que o consultório é o cenário e a escuta clínica, o motor dramático.

Paranoia como fio condutor

O tema central desta temporada é a paranoia em suas variações, do ciúme patológico à hipocondria delirante. A estrutura narrativa mantém o formato adotado na terceira temporada: cada caso ocupa dois episódios, o que permite acompanhar o processo terapêutico com mais respiro do que a televisão convencional costuma oferecer. É uma escolha que diferencia PSI de qualquer outra série médica brasileira. Aqui não há diagnóstico em 42 minutos nem virada emocional garantida no último ato. O desconforto é parte do pacote.

Na vida pessoal do psicanalista Carlo Antonini, vivido por Emilio de Mello, a temporada introduz um novo eixo afetivo: o personagem começa um relacionamento com Malu, uma moradora de rua. É o tipo de arco que, nas mãos erradas, viraria metáfora barata sobre empatia profissional. Em PSI, o interesse está justamente em observar o quanto o analista consegue, ou não, separar o olhar clínico da vida que leva fora do consultório.

O psicanalista que escreve roteiros

A série existe porque Contardo Calligaris aceitou fazer algo pouco comum para um intelectual de sua estatura: transformar décadas de escuta analítica em ficção televisiva. Calligaris é psicanalista, colunista e professor com carreira consolidada no Brasil e nos Estados Unidos, onde lecionou na New School for Social Research, em Nova York. Assinar o roteiro e a coordenação de PSI desde a primeira temporada não foi um desvio de trajetória, foi uma extensão dela. Os casos retratados na série têm origem em situações reais da sua prática clínica, reconfiguradas para a ficção com o cuidado ético que o formato exige.

Emilio de Mello, o Carlo da série, construiu o personagem ao longo das quatro temporadas sem recorrer aos clichês do terapeuta televisivo, sem o analista que eventualmente quebra as regras por bondade ou drama. A contenção é a característica central da atuação, e isso exige mais do ator do que qualquer cena de explosão emocional.

O que significa encerrar aqui

PSI estreou em 2011 e atravessou quatro temporadas em um período em que o mercado de séries brasileiras para cabo ainda buscava uma identidade própria. A série nunca foi um fenômeno de audiência massiva, mas construiu reputação crítica consistente e funcionou como prova de conceito: dava para fazer televisão adulta no Brasil sem precisar de tiros, humor pastelão ou vilões cartunizados.

O encerramento na quarta temporada não chegou como cancelamento abrupto. A decisão de encerrar a série foi tomada de forma planejada, com a temporada final sendo produzida com consciência de que seria a última. Isso é raro no contexto brasileiro e muda a experiência de assistir: sabendo que há um fim desenhado, os 10 episódios carregam peso diferente.

Para quem acompanhou PSI desde o início, a temporada da paranoia fecha um ciclo temático que passou pelo luto, pela sexualidade e pelas crises de identidade nas temporadas anteriores. Para quem entra agora, o conselho é começar do início, não por questões de continuidade narrativa, mas porque a série funciona como um todo, e o consultório de Carlo Antonini tem mais a dizer quando visto em acumulação.

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