A Netflix estreia Irmandade no dia 25 de outubro, sua primeira série brasileira ambientada no universo do crime organizado paulistano, com uma protagonista feminina no centro de uma trama de infiltração policial.
Uma advogada entre dois mundos
Cristina, interpretada por Naruna Costa, leva uma vida estruturada até descobrir que o irmão Edson corre risco de morte dentro da cadeia. A polícia usa essa vulnerabilidade para recrutá-la como informante, obrigando-a a reconstruir um vínculo familiar rompido há anos, enquanto trabalha às margens da lei que supostamente defende. A série se passa em São Paulo nos anos 1990, escolha que o diretor Pedro Morelli descreve como decisão narrativa deliberada: sem celular, as mulheres eram peças centrais na comunicação entre o mundo interno e externo das prisões, o que justifica colocar Cristina no meio dessa engrenagem.
Morelli descartou dois caminhos mais óbvios antes de chegar a esse formato. A perspectiva do policial investigando uma facção ele considerou “a mais esperada e menos bacana”. O líder criminoso como protagonista também foi descartado por já ter sido explorado em excesso. A mulher como ponto de entrada nesse universo surgiu como terceira opção e acabou determinando até o recorte histórico da trama.
Seu Jorge fora dos palcos, dentro de um presídio real
Seu Jorge, conhecido principalmente pela carreira musical, com discos como Cru e pela trilha de A Vida Aquática de Steve Zissou, interpreta Edson, o irmão que comanda uma facção de dentro do sistema prisional. As gravações aconteceram em um presídio real em Curitiba, com a produção operando dentro das regras da unidade. O ator descreveu a experiência como um aprendizado sobre convivência e pertencimento, declarações que indicam uma abordagem mais humanizada do personagem do que o arquétipo do vilão funcional.
Naruna Costa, por sua vez, constrói Cristina a partir de uma rigidez moral herdada do pai, espelhada, segundo a própria atriz, na postura que Edson mantém dentro do crime. A dualidade ética entre os dois irmãos é o eixo central da série: ambos operam por códigos próprios de conduta, em ambientes radicalmente opostos. Costa ainda aponta a condição de família negra exposta à violência em São Paulo como camada essencial do contexto das personagens.
O elenco de apoio inclui Wesley Guimarães, Lee Taylor, Pedro Wagner e Danilo Grangheia.
O que Irmandade representa na grade brasileira da Netflix
A Netflix investiu de forma consistente em produções brasileiras desde 2017, quando estreou 3%, série que abriu espaço para um nicho de ficção científica distópica nacional. Nos anos seguintes, apostou em Sintonia, Coisa Mais Linda e Omniscient, com resultados variados de audiência, mas construindo um catálogo que passou a circular internacionalmente. Irmandade entra nessa leva com um diferencial concreto: é a primeira produção brasileira da plataforma centrada em crime organizado urbano com protagonismo feminino, um formato que funcionou bem em séries europeias como Suburra e Gomorra, ambas com desempenho sólido fora de seus países de origem.
A ambientação nos anos 1990, além da função narrativa que Morelli explica, evita comparações diretas com o noticiário atual sobre facções, o que costuma ser um ponto de atrito com plataformas e anunciantes. Ao mesmo tempo, o período histórico é suficientemente próximo para ressoar com o público adulto brasileiro que viveu aquela São Paulo.
Se Irmandade repetir o padrão de 3%, que foi renovada por quatro temporadas e chegou ao top 10 em mais de 30 países, a Netflix terá consolidado mais um formato exportável dentro da produção nacional. O ponto de partida é mais sólido: elenco reconhecível, premissa original e uma direção que claramente se preocupou em não repetir o que já foi feito.

