O final de ‘Stranger Things’ prova que o streaming mudou e não foi para melhor

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Esperamos quase uma década. Vimos crianças se tornarem adultos diante dos nossos olhos, mas o que a Netflix nos entregou no encerramento de Stranger Things foi algo que muitos estão chamando de “a grande decepção do streaming”. Após anos de teorias e expectativas lá no alto, o desfecho da saga de Hawkins deixou um gosto amargo, revelando uma série que parece ter se perdido no próprio gigantismo.

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O maior problema, no entanto, não é apenas o tempo. A demora de 10 anos para concluir a história drenou o ritmo da produção. O que antes era uma aventura ágil e misteriosa transformou-se em um roteiro que insiste em explicar cada detalhe. Por diversas vezes, fomos obrigados a ouvir personagens explicando, de forma didática e cansativa, a teoria do surgimento do Mundo Invertido e da Dimensão X. Parece que a Netflix optou por “emburrecer” suas produções para competir com a atenção dividida do espectador que não larga o celular, tratando mistérios complexos como tutoriais mastigados (quem não lembra de ousadia e complexidade de tramas como Dark).

Se você sentiu que a magia se perdeu, não está sozinho. Muitos comparam essa queda de qualidade com o que aconteceu em outras grandes produções que se estenderam demais. Enquanto o grupo principal tenta encontrar uma forma de invadir o ninho de Vecna, acompanhamos o núcleo militar. O exército americano, tentando conter a fenda que se abriu no centro da cidade, protagoniza cenas de ação que muitos fãs consideraram desconexas. Eles tentam usar tecnologia para selar os portais, mas falham miseravelmente, servindo mais como um obstáculo burocrático para os heróis do que como uma solução real para o problema sobrenatural.

Após várias ameaças de que “ninguém estaria a salvo”, os irmãos Duffer não tiveram a coragem de sacrificar nenhum dos personagens principais. A sensação de perigo real, que deveria ser o motor da quinta temporada final, evaporou. Até mesmo o retorno de Kali — uma ponta solta que os fãs imploravam para ver resolvida — serviu apenas a um propósito ralo: ela volta, morre e sela o destino de Eleven (Millie Bobby Brown) de forma conveniente.

Por falar na protagonista, o destino de Eleven em aberto é a maior frustração de todas. A possibilidade dela ter escapado com vida sem uma resolução definitiva não é “poética”, é apenas decepcionante para quem investiu dez anos de vida nessa jornada. Onde está o peso emocional? Onde está a conclusão de que uma série desse calibre merecia?

As subtramas também não ajudaram. As cenas envolvendo o exército foram extremamente chatas e pareciam desconectadas do coração da narrativa. Era um ruído desnecessário em meio ao que deveria ser um confronto épico e sobrenatural. Além disso, uma pergunta não sai da cabeça dos fãs: por que os Demogorgons simplesmente não apareceram na batalha final? O exército de monstros que nos aterrorizou desde a primeira temporada foi substituído por explicações pseudocientíficas que tiraram o pavor do Mundo Invertido. Aliás, o reino sombrio parece ter ficado muito menos assustador desde a morte de Eddie Munson; a alma da série parece ter partido com ele.

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Mas há pontos positivos. Se existe um pilar que manteve a temporada de pé, foi a atuação magistral de Jamie Campbell Bower como Vecna. Ele entregou um vilão puramente maligno, sem aquela busca clichê por redenção que assola o cinema atual. Ele queria a destruição e Jamie transmitiu isso com uma intensidade convincente e dramática (mesmo que pouco da história de Henry com o Devorador de Mentes tenha sido revelada ao público).

O protagonismo de Will (Noah Schnapp) também é outro ponto alto da narrativa, mostrando finalmente o que aconteceu com o garoto no Mundo Invertido e encerrando o volume 1 da quinta e última temporada com um bom clímax. Ele também foi peça central para derrotar Vecna, só que até agora não foi explicado como ele sobreviveu mesmo estando conectado à mente coletiva do vilão e de suas criaturas.

Vale também comentar o arco da mãe de Holly. Em meio ao caos, a produção conseguiu mostrar de forma tocante o que uma mãe é capaz de fazer para proteger sua filha, trazendo um pouco da alma que se perdeu em Stranger Things.

No fim das contas,Stranger Things termina como um lembrete de que nem sempre o maior orçamento garante o melhor final. A série que começou como uma carta de amor aos anos 1980 terminou como um produto de algoritmo, preocupado demais em explicar e pouco preocupado em sentir. Eu, particularmente, gosto da última cena em que Mike está reunido com os amigos para um último jogo de RPG. Ali, está a essência que tornou a série tão popular. É uma pena que os irmãos Duffer tenham se perdido no processo: o final em si não decepciona; o que decepciona é o caminho e as escolhas que nos levaram até lá. 

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O arco do Will foi um dos maiores destaques do final da série

O que aconteceu com cada personagem em Stranger Things

O roteiro pode ter sido “mastigado”, mas o destino dos personagens deixou algumas perguntas. Veja como cada um terminou:

  • Eleven: O destino da protagonista ficou totalmente em aberto. Embora as pistas sugiram que ela escapou com vida da batalha final, a interpretação ficou livre para cada espectador. 

  • Kali (Oito): Após anos de sumiço, ela retornou apenas para ser sacrificada. Sua participação foi reduzida a um dispositivo de roteiro: ela morre para selar o destino de Eleven e impulsionar a protagonista, sem ter um arco próprio de redenção ou desenvolvimento.

  • Vecna (Henry Creel): O grande destaque positivo. Ele foi derrotado, mas não “limpo”. Jamie Campbell Bower entregou um vilão que morreu mantendo sua essência maligna, sem cair no clichê de se tornar bom no último segundo.

  • O grupo de amigos (Mike, Will, Dustin e Lucas):  Apesar das ameaças de morte iminente durante toda a temporada, o grupo principal saiu intacto, o que tirou o peso emocional do encerramento para a parte da audiência. Escapou também o Steve, que era um dos mais cotados para morrer na temporada. Max também sobreviveu e se recuperou do coma. E todas as crianças foram salvas!

  • Eddie Munson: Mesmo após sua morte em temporadas anteriores, ele continuou sendo a “alma” que faltou no final. Sem ele, o Mundo Invertido perdeu o fator assustador e se tornou apenas um cenário para explicações teóricas chatas.

  • O Exército: por toda a série foi uma força descoesa e confusa. Suas cenas foram longas e não se conectaram organicamente com a luta sobrenatural, servindo mais como um obstáculo burocrático do que como uma ameaça real.

  • Joyce e Jim Hopper: finalmente tiveram a sua chance de felicidade e terminam a série noivos. 

 

 

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