The 100 estreou no CW em março de 2014 apostando em uma fórmula já testada, mas entregou uma primeira temporada funcional o suficiente para garantir renovação antes mesmo do finale. A série foi criada por Jason Rothenberg com base nos romances de Kass Morgan e atraiu uma média de 2,7 milhões de espectadores por episódio na exibição linear, número modesto para os padrões da época, mas sólido dentro do perfil demográfico jovem que o CW perseguia. A renovação para a segunda temporada foi anunciada em abril de 2014, semanas antes do encerramento do primeiro ciclo.
O apocalipse como ponto de partida
A premissa coloca 100 jovens delinquentes de volta à Terra após um apocalipse nuclear ter varrido o planeta 97 anos antes. O que resta da humanidade vive em uma estação orbital chamada Arca, uma estrutura já à beira do colapso por falta de recursos. Mandar os jovens para o planeta funciona tanto como missão de reconhecimento quanto como descarte conveniente de bocas extras para alimentar. A série não esconde essa lógica: os adolescentes são utilizados pelo governo como cobaias, e parte da tensão da primeira temporada vem exatamente de quando eles percebem isso.
A comparação com Lost é inevitável e, em certa medida, produtiva. Os “Grounders”, nativos que sobreviveram à radiação e desenvolveram uma cultura própria no planeta, cumprem o papel dos “Outros” da ilha de Jack e Locke: são ameaça, mistério e espelho moral ao mesmo tempo. O roteiro não escapa dos clichês, incluindo um triângulo amoroso entre Clarke, Finn e Raven e a relação entre Octavia e o nativo Lincoln, que o show vende como versão pós-apocalíptica de Romeu e Julieta sem muito disfarce.
Elenco em construção
Eliza Taylor e Bob Morley carregam o peso da narrativa como Clarke e Bellamy, dois líderes com filosofias opostas que a série força a coexistir. Taylor, australiana conhecida antes pelo trabalho na novela Neighbours, e Morley, também australiano, foram escalados com orçamento contido, o que explica por que as atuações mais consistentes da temporada vieram dos nomes mais experientes do elenco.
Paige Turco, que acumula décadas de televisão americana incluindo The Agency e NYPD Blue, entrega a personagem Abby com uma gravidade que o roteiro dos jovens raramente alcança. Henry Ian Cusick, o Desmond de Lost, aparece como o conselheiro Kane e é a contratação mais evidente da temporada: o showrunner Rothenberg citou em entrevistas que escalou Cusick justamente por sua familiaridade com narrativas de sobrevivência coral. A coincidência com Lost deixa de ser coincidência quando se lê o histórico da produção.
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As mortes de Wells e Charlotte nos episódios iniciais estabelecem o tom que o show quer manter: ninguém é imune por ser simpático. É uma das escolhas mais honestas da temporada e uma das que mais contribuíram para que o público jovem se engajasse além da faixa de segurança habitual do CW.
O que a segunda temporada precisa provar
O final da primeira temporada reorganiza o tabuleiro de forma relevante. Os sobreviventes da Arca finalmente desceram à Terra, os Grounders entraram em conflito aberto com os jovens e Clarke foi capturada por um grupo chamado Mountain Men, instalado no Monte Weather, uma base militar subterrânea com estrutura científica sofisticada. A pergunta sobre quem são essas pessoas e o que querem é o gancho mais concreto que a série construiu.
A segunda temporada tem o desafio de transformar o que funcionou por sobrevivência narrativa em algo com identidade própria. Lost levou três temporadas para consolidar sua mitologia; The 100 precisa fazer isso mais rápido porque opera em episódios mais curtos, com orçamento menor e numa grade de programação que não perdoa queda de audiência. Rothenberg já disse que a segunda temporada dobra a escala do conflito. O universo montado até aqui aguenta esse peso. A execução vai definir se The 100 ficou apenas na sombra de Lost ou encontrou o próprio caminho.
Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.




