‘The Flash’ encerra a era de ouro da DC na televisão

The Flash encerrou sua nona temporada em maio de 2023, depois de nove anos e 184 episódios no ar. A série da CW foi, por muito tempo, o produto mais bem-sucedido do Arrowverse, o universo compartilhado de heróis construído a partir de Arrow, que estreou em 2012.

O que Arrow plantou, o Flash colheu

Quando Arrow chegou à CW, a aposta era modesta: um herói sem superpoderes, efeitos especiais contidos e uma tonalidade sombria inspirada nos quadrinhos de Dennis O’Neil. Stephen Amell conquistou audiência suficiente para que a emissora apostasse na expansão do universo. A participação de Grant Gustin como Barry Allen em dois episódios da segunda temporada de Arrow, em 2013, funcionou como teste de mercado. O retorno do público foi positivo o bastante para garantir a série solo.

The Flash estreou em outubro de 2014 com os maiores índices de audiência da CW em quatro anos: 4,8 milhões de espectadores no primeiro episódio. A série se distanciou da seriedade de Arrow desde o início, apostando em um tom mais leve e colorido, fiel à versão dos quadrinhos de Mark Waid dos anos 1990, que reinventou Barry Allen e estabeleceu o conceito da Força de Aceleração.

A premissa seguiu o material de origem com fidelidade razoável: Barry Allen é um cientista forense de Central City que, após ser atingido por um raio e acordar de um coma de nove meses, descobre ter velocidade sobre-humana. O laboratório S.T.A.R., destruído na mesma noite do acidente, vira base de operações. A equipe, o Time Flash, cresce ao longo das temporadas e funciona como família substituta para um personagem marcado pela perda da mãe ainda na infância.

the flash 6 temporada
Série The Flash

A equipe que ficou e a que foi embora

A força da série nas primeiras temporadas veio tanto dos vilões quanto dos laços entre os personagens. Tom Cavanagh, que interpretou múltiplas versões do Dr. Wells ao longo de oito temporadas, foi um dos elementos mais elogiados pela crítica, capaz de transitar entre antagonista e mentor sem perder coerência. Carlos Valdes, como Cisco Ramon, criou um dos personagens mais queridos do Arrowverse, o que tornou sua saída na sétima temporada um dos momentos mais sentidos da série. Valdes sinalizou publicamente que a decisão foi dele, parte de um desejo de explorar outros projetos.

Danielle Panabaker e Jesse L. Martin permaneceram até o fim de The Flash. Candice Patton, que viveu Iris West, enfrentou uma pressão considerável ao longo dos anos, chegando a relatar publicamente em 2022 que cogitou deixar a série por conta do assédio racista que recebia de parte do fandom. Ela ficou, e Iris esteve presente no capítulo final.

John Wesley Shipp, que interpretou o Flash original na série de 1990 da CBS, também chegou ao encerramento, num gesto que conectou mais de três décadas de adaptações do personagem para a TV.

O fim de um ciclo com data marcada

A nona temporada foi anunciada como a última antes mesmo de ir ao ar. A CW passou por uma reformulação editorial significativa após a venda da emissora para a Nexstar Media Group, em 2022, o que acelerou o encerramento de várias produções do Arrowverse. Legends of Tomorrow foi cancelada em 2022 sem temporada final. Batwoman também. The Flash foi a série que recebeu a despedida formal.

O arco final trouxe de volta Rick Cosnett como Eddie Thawne, morto na primeira temporada, agora usado como avatar da Força de Aceleração Negativa. A escolha funcionou como fechamento emocional para quem acompanhou a série desde o início, quando a morte de Eddie representou um dos momentos mais impactantes do Arrowverse. Barry mais uma vez foi transportado para a noite do assassinato de sua mãe, um evento que estruturou toda a mitologia da série, mas desta vez sem a obrigação de apenas assistir: ele pode estar presente, ao lado dos pais, antes que o inevitável aconteça.

É o tipo de resolução que define o personagem melhor do que qualquer discurso. Barry Allen nunca foi o herói que vence pela força ou pela brutalidade. Durante nove temporadas, a série insistiu nessa distinção em relação a Oliver Queen e à maioria dos protagonistas do gênero. Que o final confirme essa escolha, sem abrir mão dela, é o legado mais concreto que The Flash deixa para quem vai revisitar a série nos próximos anos.

  • julia benvenuto foto 'The Flash' encerra a era de ouro da DC na televisão

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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