Samantha! chega à Netflix nesta sexta-feira (6) com uma proposta que poucos projetos brasileiros ousaram desenvolver: uma comédia sobre o luto da fama infantil e a dificuldade de se reinventar quando o mundo já seguiu em frente.
A série acompanha Samantha, ex-protagonista da fictícia Turminha Plimplom, um programa infantil dos anos 1980 claramente inspirado no universo de Xou da Xuxa e Balão Mágico. Adulta, praticamente anônima e mãe de dois filhos, ela vê sua vida virar de cabeça para baixo quando o marido Dodói, ex-jogador de futebol, sai da prisão. O caos doméstico funciona como detonador: Samantha enxerga ali uma janela de exposição midiática e decide usá-la para voltar aos holofotes, agora no território dos influenciadores digitais.
O contraste entre a lógica da TV aberta dos anos 80 e a lógica das redes sociais é justamente onde Samantha! aposta suas fichas. Felipe Braga, criador da série e responsável por trabalhos como Coisa Mais Linda, afirmou em coletiva de imprensa que a intenção foi capturar a moral torta da televisão infantil daquela época, em que aparência, merchandising e performance emocional se misturavam sem muita autocrítica. “A gente queria que parecesse que o Plimplom realmente fez parte do nosso passado”, disse Braga, explicando a decisão de compor músicas originais para o programa fictício. As canções foram desenvolvidas especialmente para a série e funcionam como âncora de época, o mesmo recurso que faz produções como Stranger Things funcionarem: quando a trilha soa verdadeira, o universo inteiro ganha credibilidade.
O elenco que sustenta a comédia
Emanuelle Araújo carrega o peso da protagonista com uma carreira construída em papéis que equilibram comédia e drama. Conhecida pelo público brasileiro por novelas e pelo filme Faroeste Caboclo (2013), no qual contracenou com Fabrício Boliveira, ela raramente teve espaço para liderar um projeto de comédia com essa escala de produção. Em coletiva, descreveu Samantha como “uma mulher que coloca toda a sua paixão em voltar para os holofotes”, mas sem romantizar a personagem: há algo de delirante e de patético calculado na construção do papel, e é esse equilíbrio que vai definir se a série funciona além do primeiro episódio.
Douglas Silva vive Dodói, o ex-marido, jogador de futebol. Silva vem de um momento de alta visibilidade internacional: indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Tropa de Elite 2 em 2022, pelo personagem Acerola em Cidade de Deus e pela série Maldivas na própria Netflix, ele traz peso dramático para um papel que, no papel, poderia ser apenas alívio cômico. O elenco se completa com Daniel Furlan, Rodrigo Pandolfo e Lorena Comparato, atriz que o público já conhece de O Mecanismo e Nada Será Como Antes.
O que a série representa na ficção brasileira da Netflix
Samantha! entra em um catálogo onde a comédia brasileira ainda busca seu espaço. Produções nacionais da plataforma tenderam a se concentrar em thriller, drama social e crime, com comédias chegando mais pelo formato stand-up do que pela ficção seriada. A série de Felipe Braga testa se há apetite para uma comédia de personagem com referências culturais específicas dos anos 80 e 90 brasileiros, o tipo de produto que depende de reconhecimento afetivo para funcionar, e que corre o risco de soar hermético para quem não viveu aquela televisão.
10 séries de comédia que mais parecem dramas para assistir
O ponto de partida, porém, é mais universal do que parece. A trajetória de crianças que cresceram sob holofotes e enfrentaram o apagamento na vida adulta tem paralelos reais e dolorosos, de ex-participantes de programas infantis a estrelas mirins de outros países. Se Samantha! conseguir equilibrar a nostalgia com a crítica que a premissa exige, pode ser a série brasileira mais afiada do ano na plataforma.
-
Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.