Fábio Porchat protagoniza e co-escreve Homens?, série produzida em parceria com o Porta dos Fundos que estreia em 18 de março, às 22h, no Comedy Central. No dia seguinte, o conteúdo fica disponível para assinantes da Amazon Prime Video.
O machismo como ponto de partida, não como pano de fundo
A série acompanha quatro amigos cujas dinâmicas são sacudidas quando Alexandre, vivido pelo próprio Porchat, enfrenta disfunção sexual. O problema individual vira catalisador para expor comportamentos enraizados no grupo: os amigos Gustavo (Gabriel Godoy), Pedrinho (Raphael Logam) e Pedro (Gabriel Louchard) tentam resolver a situação com soluções que dizem bastante sobre como homens lidam, ou não lidam, com vulnerabilidade. Levam Alexandre a um bordel. Sugerem viagra. Nenhuma das abordagens funciona, e é exatamente aí que a série encontra seu argumento.
Em oito episódios, Homens? coloca os protagonistas em situações onde seus relacionamentos e sua relação com igualdade de gênero são diretamente testados. Cenas de discriminação no ambiente de trabalho, incluindo dinâmicas de hierarquia onde a autoridade feminina incomoda, compõem parte do repertório. Gisele Fróes, que interpreta a chefe de um dos personagens, resume bem o recorte da produção: “O machismo e o feminismo não estão em saber se a mulher tem autoridade, mas sim igualdade.”
A série não trata o machismo como tema de mulheres que precisam ser ouvidas por homens. Trata como um problema que afeta diretamente os próprios homens, inclusive na cama. É uma escolha narrativa mais arriscada, e potencialmente mais eficaz, do que o moralismo explícito.
Porchat e o Porta dos Fundos em território de série
A parceria entre Porchat e o Porta dos Fundos faz sentido no currículo de ambos. O coletivo, fundado em 2012, acumulou bilhões de visualizações no YouTube e já havia dado o salto para o formato longo com O Natal do Porta dos Fundos, especial de 2018 que se tornou o filme brasileiro mais assistido da história da Netflix no país à época, antes de gerar polêmica religiosa e pressão por retirada do catálogo. Homens? representa uma aposta diferente: uma série episódica para TV paga e streaming, com linguagem mais próxima de dramedia do que de esquetes.
Porchat, além de estrelar, co-escreve o roteiro, o que posiciona Homens? como um projeto autoral dentro da sua trajetória. Ele citou Sex and the City e Girls como referências diretas para a construção da série, especialmente no que diz respeito a quebrar o estigma do sexo idealizado. As duas produções americanas usaram a vida sexual como espelho de questões mais amplas de identidade e relacionamento. Homens? tenta fazer o mesmo movimento, mas a partir do ponto de vista masculino e com o machismo estrutural como ruído constante de fundo.
“A série é focada no mundo masculino, como as coisas em relação ao sexo acontecem de verdade”, disse Porchat em coletiva. “Muitos homens olham o feminismo como se não fosse problema deles. E a série tenta provar que é.”
O Comedy Central como vitrine para ficção nacional adulta
A escolha do Comedy Central como casa de estreia não é aleatória. O canal tem sido um dos poucos espaços de TV paga no Brasil a investir em ficção seriada nacional com temática adulta e viés de comédia, território que a TV aberta raramente ocupa com a mesma liberdade de linguagem. A combinação com a Amazon Prime Video amplia o alcance para um público que já consumiu o Porta dos Fundos em plataformas digitais e tem familiaridade com o formato.
Se Girls demorou duas temporadas para ser reconhecida como referência de sua geração, Homens? chega com menos paciência disponível do público e da crítica. A comparação com produções americanas consolidadas levanta a expectativa, mas também o metro de medida. O que vai definir se a série passa de curiosidade para marco é exatamente o que Porchat promete: honestidade sobre como homens de verdade se comportam quando ninguém está julgando, e o quanto esse comportamento custa a eles mesmos.
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