A série que começou como um procedural sobrenatural de baixo orçamento na The CW em 2005 encerrou sua 15ª e última temporada em novembro de 2020, depois de se tornar a produção de maior duração na história do canal. Supernatural acumulou 327 episódios, atravessou quatro presidentes dos Estados Unidos e sobreviveu a rumores de cancelamento que circularam desde a terceira temporada.
O fim que a estrada exigia
A reta final foi construída em torno de um antagonista que a série demorou dez anos para nomear diretamente: Chuck Shurley, revelado como o próprio Deus nas últimas temporadas. A escolha funcionou como espelho da metanarrativa que o showrunner Andrew Dabb vinha desenvolvendo, a ideia de que Sam e Dean sempre foram personagens dentro de uma história escrita por outro. Matar o autor era, literalmente, o objetivo.
O caminho até lá exigiu baixas. Castiel, interpretado por Misha Collins desde a quarta temporada, se sacrifica para salvar Dean em um discurso que virou objeto de análise em fóruns de escrita criativa pela forma como condensou quinze anos de desenvolvimento de personagem em menos de três minutos. Jack, o nefilim filho de Lúcifer, passa pelo Vazio e retorna com uma função narrativa clara: absorver a energia divina de Chuck e assumir o posto de novo Deus, garantindo um universo sem roteiro fixo.
A temporada trouxe de volta Adam Milligan, o meio-irmão dos Winchester que havia sido abandonado no Inferno desde a quinta temporada e cuja ausência era citada com humor amargo pelos próprios atores em painéis na Comic-Con. O retorno foi bem recebido justamente por reconhecer uma dívida narrativa antiga. Bobby e Charlie do universo paralelo, Donna e Lúcifer também reapareceram, mas a reunião que os fãs mais esperavam, John e Mary Winchester juntos com os filhos, não aconteceu na porção terrestre da história.
Padalecki, Ackles e 15 anos de quilometragem
Jared Padalecki e Jensen Ackles gravaram o piloto em Vancouver em 2005 com menos de 23 e 27 anos, respectivamente. Quando a série terminou, ambos já tinham filhos, outros projetos em desenvolvimento e uma relação pública com o fandom que poucos atores de TV sustentam por tanto tempo sem desgaste visível.
Na San Diego Comic-Con de 2019, quando o encerramento foi anunciado oficialmente, Padalecki deixou claro que queria um fim real para os personagens, com mortes de peso. Robert Singer, diretor e produtor executivo que acompanhou a série desde o início, confirmou ao Pop Séries que mortes aconteceriam, sem entregar quais. A pandemia de Covid-19 interrompeu as gravações em março de 2020 e atrasou a estreia do episódio final em quase seis meses. A produção retomou com protocolos rígidos e um elenco reduzido, o que limitou algumas escolhas criativas dos dois últimos episódios.
O que quinze anos de estrada deixam
Dean morre durante uma caçada rotineira a vampiros, não em batalha épica contra Deus. A escolha narrativa foi deliberada: depois de salvar o mundo repetidas vezes, ele encontra o fim numa operação comum, o tipo de risco que Sam e Dean correram desde o episódio um. No Paraíso reformado por Jack, todos os entes queridos coexistem sem as restrições da versão anterior, e Dean reencontra Castiel numa indicação suficientemente ambígua para satisfazer leituras diferentes.
Sam tem a vida que Dean nunca teve, com casamento, filho e morte por velhice. O filho se chama Dean. O reencontro final entre os dois no Paraíso é o encerramento que Padalecki havia pedido publicamente dois anos antes.
Supernatural terminou como a série mais longa já exibida pela The CW e uma das mais longas da televisão americana em gênero fantástico. Para quem acompanhou desde o início, o final entregou exatamente o que a série sempre prometeu: não a batalha mais espetacular, mas a confirmação de que a relação entre os dois irmãos era o único enredo que sempre importou.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.




