É revigorante ver Tom Cruise deixar as acrobacias mortais e os aviões de caça de lado para abraçar o desconhecido. Ao se afastar do título intocável de galã de ação em Hollywood, ele aposta em uma direção arriscada.
No recém-lançado filme Digger, o ator entrega um dos papéis mais desafiadores e complexos de toda a sua longa carreira. A trama coloca Cruise na pele do homem mais poderoso do mundo. Ele interpreta um magnata do petróleo, Digger Rockwell e um negacionista climático convicto. O grande problema é que suas ações ambiciosas levam a humanidade diretamente para um evento catastrófico.
O ponto de virada surge quando o desastre se torna iminente, anunciado com o desprendimento de um bloco de gelo do tamanho de uma grande cidade na Groenlândia. A partir daí, o protagonista embarca em uma missão frenética e quase cínica. Ele tenta provar que é o verdadeiro salvador da humanidade, em um esforço desesperado para consertar o colapso que ele mesmo provocou.
Enquanto o mundo assiste em pânico à tragédia global, a estratégia do bilionário não é recuar, mas dobrar a aposta. Ele usa sua vasta influência para manipular a narrativa da mídia, transformando a crise ambiental em uma oportunidade para vender falsas soluções tecnológicas e lucrar com o pânico iminente.
O filme Digger não perde tempo em estabelecer suas intenções. Sob a direção do vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu (Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades), a obra funciona como uma crítica direta ao consumismo desenfreado e à cegueira das grandes corporações.
Há paralelos claros e intencionais que funcionam como uma sátira inteligente ao governo Trump. A narrativa utiliza essa base política para questionar, de forma mais ampla, os altos custos da vida moderna e o impacto que isso tem na nossa própria existência.

O roteiro constrói essa crítica com maestria. Iñárritu coescreveu a obra ao lado de seus parceiros habituais e vencedores do Oscar, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, além de Sabina Berman. Um dos maiores trunfos da produção é o uso astuto da metalinguagem, a exemplo de Birdman. E aqui não vou dar spoilers, porque há muitas cenas inesperadas no roteiro que merecem ser vistas às cegas pelo público.
O longa brinca com a própria imagem de herói salvador que Tom Cruise construiu em Hollywood ao longo de décadas. O cineasta mexicano faz questão de subverter essa expectativa do espectador a cada nova cena.
A narrativa avança impulsionada por reviravolta após reviravolta em um ritmo sufocante. Quando o público acredita ter entendido o jogo do magnata, o roteiro puxa o tapete, revelando novas camadas de hipocrisia e desespero na corrida pela sobrevivência.
Para sustentar esse roteiro denso, a escalação do elenco de apoio foi crucial. Cruise divide a tela com o vencedor do Oscar Riz Ahmed e com o veterano John Goodman, como o presidente Compson, que entregam atuações que equilibram perfeitamente o tom absurdo da sátira.
A atriz Sandra Hüller também brilha intensamente em cena. Completando o time, temos as presenças magnéticas de Michael Stuhlbarg e de Jesse Plemons (e talvez esteja em um dos papéis mais tímidos de sua carreira em Digger, mas que acaba se provando como um dos mais cruciais para a virada da narrativa).
Por trás das câmeras, Iñárritu reuniu um verdadeiro esquadrão de elite da indústria cinematográfica. A estética visual opressiva e grandiosa tem a assinatura do diretor de fotografia vencedor do Oscar, Emmanuel Lubezki, parceiro de longa data do cineasta.
A imersão nesse mundo de luxo e colapso é garantida pelos designers de produção Dennis Gassner e Richard Johnson. A edição ágil, fundamental para o ritmo de suspense e sátira, ficou a cargo de Conor O’Neill e Stephen Mirrione.
No fim das contas, a obra nos força a olhar para o espelho. Ao desconstruir o arquétipo do herói inatingível, a trama nos deixa com um incômodo persistente sobre o nosso próprio papel no esgotamento rápido e silencioso do planeta.
É uma visão criativa no cinema, que foge da fórmula previsível que não choca mais. Iñárritu recusa a via fácil de focar apenas em eventos apocalípticos rasos, com terremotos, tsunamis e êxodos em massa dependentes de efeitos visuais.
A pergunta que fica martelando após os créditos é: até que ponto estamos dispostos a ignorar os sinais do ambiente apenas para manter nossos confortos diários? Deixe sua opinião nos comentários e conte para a gente o que você achou dessa nova fase de Tom Cruise nas telonas.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

