A quarta temporada de iZombie estreou nesta segunda-feira (26) no canal CW com uma virada de roteiro que muda o jogo da série: os zumbis deixaram de ser segredo e Seattle se tornou uma cidade dividida entre mortos-vivos e humanos que não querem conviver com eles.
Muros, medo e cérebros: o que mudou em Seattle
A temporada começa três meses após os eventos do final da terceira fase, quando a existência dos zumbis se tornou de conhecimento público. Parte da população deixou a cidade. Quem ficou se divide entre humanos com medo, militantes antizumbi e um grupo improvável de fãs fanáticos dos mortos-vivos. A showrunner Diane Ruggiero, que divide a criação da série com Rob Thomas desde a adaptação dos quadrinhos da Vertigo/DC em 2015, descreveu o novo cenário como “inquietação”, não guerra. A dinâmica lembra menos The Walking Dead e mais uma distopia urbana de coexistência forçada, próxima do que True Blood explorou quando os vampiros saíram do armário na série da HBO.
O elemento central da temporada é o muro que separa Seattle do resto do mundo. Do lado de fora, humanos morrem sem acesso ao “local seguro” que a cidade representa para os zumbis. Do lado de dentro, Liv precisa aprender a operar numa realidade onde ela não é mais o único segredo a guardar. Ruggiero resume bem: “Eles vão ter que encontrar uma maneira de coexistir.” O problema é que nenhum lado parece muito disposto.
Rose McIver e o peso de carregar uma série
iZombie chegou à quarta temporada com um desempenho de audiência que poucas séries do CW conseguem manter. A estreia da terceira temporada, em 2017, registrou cerca de 900 mil espectadores ao vivo nos Estados Unidos, número modesto para padrões de redes abertas, mas consistente para o canal, que aposta pesado no consumo sob demanda e no público jovem fidelizado por streaming. A série funciona como veículo quase solo de Rose McIver, atriz neozelandesa que precisava trocar de personagem toda semana, literalmente: o gimmick central de iZombie é que Liv absorve a personalidade de cada cérebro que consome, o que exige da protagonista uma performance diferente a cada episódio.
McIver construiu a carreira em produções menores antes de iZombie, com passagens por Once Upon a Time e Masters of Sex, mas foi a série do CW que a estabeleceu como nome reconhecível. A quarta temporada testa esse alcance de forma direta: com Major (Robert Buckley) de volta ao lado zumbi, a dinâmica do ex-casal muda de eixo. Ruggiero aponta que isso redistribui o peso dramático, “há muito mais pressão em todos”, o que, na prática, significa que o elenco de suporte ganha mais espaço narrativo do que nas temporadas anteriores.
A decisão de tornar os zumbis públicos é o tipo de guinada que séries de fantasia costumam evitar até o último momento, porque resolve a tensão central da premissa. iZombie fez isso no fim da terceira temporada e agora precisa justificar a escolha. O risco é real: sem o segredo como motor de conflito, a série precisa construir nova fricção, e a divisão política de Seattle, com facções humanas e zumbis em disputa, é a aposta de Ruggiero e Thomas para manter o ritmo.
A comparação mais honesta aqui é com Buffy, a Caça Vampiros que na sétima e última temporada também escalou o conflito para o nível de “toda a cidade sabe”, com resultados mistos. iZombie tem a vantagem de ser mais leve em tom e mais ágil em formato, o que pode tornar a transição menos traumática. Se a série conseguir manter o humor e a inventividade das performances de McIver dentro desse novo contexto político, a quarta temporada tem material para ser a mais ambiciosa até agora.
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Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.