A aposta da HBO Max com Lanternas parecia ser exatamente o respiro maduro que a DC precisava na televisão. A produção entregou, de início, um suspense denso e investigativo que prendeu a atenção de imediato.
No entanto, o que começou como um mistério promissor terminou em uma enorme frustração para os leitores das histórias em quadrinhos. A série caminhou para um final de temporada decepcionante, falhando justamente com sua base mais fiel.
A ausência de fidelidade ao material original cobrou o seu preço no último episódio. Após construir uma tensão invejável, John Stewart termina sua jornada inicial sem assumir o traje ou o legado heroico de fato. Pior ainda, o impacto da vida e da morte de Hal Jordan é varrido para debaixo do tapete, sendo praticamente esquecido aos olhos do mundo. Onde Lanternas errou a mão ao tentar inovar dentro do universo dos super-heróis?
Quando Lanternas foi anunciada, boa parte do público esperava algo nos moldes de Arrow ou The Flash. A expectativa era acompanhar uma jornada do herói clássica, lotada de efeitos e batalhas cósmicas. Surpreendentemente, a DC entregou uma trama terrena com fortes ares de True Detective. A escala épica dos patrulheiros espaciais vigiando 3600 setores do universo foi trocada por uma investigação criminal crua e realista.
A dinâmica central focou no assassinato de Hal Jordan logo no primeiro episódio. Esse evento traumático transformou a narrativa em um grande quebra-cabeça, montado através de flashbacks e flashforwards constantes.
A princípio, o elenco brilhante segurou essa mudança brusca de tom. Kyle Chandler trouxe um peso dramático único para o papel de Hal Jordan, entregando um mentor amargurado e marcado por traumas profundos.

Foi uma visão muito superior e mais complexa do que a apresentada no criticado filme Lanterna Verde de 2011. Do outro lado, Aaron Pierre deu vida a um John Stewart denso, construído sobre uma repressão emocional fascinante.
A série dedicou tempo para mostrar o treinamento brutal que John recebeu na infância, sendo forçado pelo próprio pai a não demonstrar medo. Essa preparação psicológica rendeu momentos de excelente roteiro. Além disso, a revelação de que o jovem aprendiz tinha uma habilidade sobrenatural para criar construtos — como manter um pássaro de energia vivo por um dia inteiro — elevou as expectativas. Tudo indicava uma ascensão épica.
Por que Lanternas não é uma adaptação fiel da DC?
Com roteiristas vindos de sucessos como Ozark, The Leftovers e Watchmen, a narrativa construiu conspirações alienígenas em cidades pequenas e até conexões secretas de Hal com Sinestro. O suspense estava no auge. Mas a série escolheu um caminho sem volta em sua conclusão. A tentativa extrema de manter os pés no chão fez a produção esquecer de abraçar o lado heroico que justificava sua própria existência.
A DC e a HBO Max quiseram tanto fugir dos clichês de gênero que abandonaram a jornada dos personagens. O final provou que um bom suspense não se sustenta sem entregar a catarse que o público espera (mesmo com uma audiência considerável para o streaming, com cerca de 18 milhões de espectadores por episódio).
Os fãs de longa data dos Lanternas Verdes aguardavam ansiosamente para ver John Stewart finalmente aceitar o chamado. Era o momento aguardado de vestir o traje clássico e se consolidar como o protetor oficial do setor. Isso simplesmente não acontece. A conclusão é anticlimática, recusando o rito de passagem do protagonista e negando ao público a recompensa por horas de acompanhamento da investigação.
A maior desfeita, contudo, foi o tratamento final dado a Hal Jordan. O mistério em torno de sua morte é solucionado, mas seu legado é sumariamente descartado pelo roteiro. Aos olhos do mundo dentro da série, Hal é esquecido. Seu sacrifício, sua história e sua importância como um dos maiores patrulheiros do universo não ganham a reverência que o personagem exigia.
Inovar dentro do universo dos quadrinhos é necessário, como evidenciado pela nova roupagem do Superman de James Gunn. Mas a inovação não pode apagar a identidade dos ícones que sustentam a marca.
A Marvel já percebeu, através da franquia Vingadores e do cansaço do público, que descaracterizar a essência afasta os espectadores. Ao tentar fugir das raízes de Supergirl ou dos Guardiões da Galáxia, Lanternas perdeu o rumo.
A desconstrução gerou uma série investigativa de alto nível técnico, mas que falhou miseravelmente como adaptação. Resta saber se a Warner terá fôlego para corrigir essa rota em uma eventual continuação.
E você, acha que a decisão de manter a série como um suspense realista justificou o abandono do traje e do legado de Hal Jordan, ou a equipe criativa errou feio com os fãs da DC?
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.




