Razão e Sensibilidade: filme atualiza o clássico sem decepcionar os leitores

O novo filme de Razão e Sensibilidade chega hoje às telas com uma promessa que consegue habilmente cumprir. O grande trunfo da produção não é apenas resgatar o clássico de Jane Austen, mas modernizá-lo para o novo público e os fãs assíduos.

Para compreender Razão e Sensibilidade, é preciso olhar com atenção para o seu material de origem. Publicado anonimamente em 1811, sob a discreta assinatura “Por uma Senhora”, este foi o romance de estreia de Jane Austen.

A obra foi escrita no fim do século 19, período em que a sobrevivência e a posição social das mulheres dependiam exclusivamente de um bom casamento. Austen usou sua escrita afiada para expor a vulnerabilidade feminina diante das cruéis leis de herança da Inglaterra regencial.

A trama central acompanha a abrupta queda social das jovens irmãs Dashwood (interpretadas por Daisy Edgar-Jones e Esme Creed-Miles) após a morte do patriarca da família. Expulsas de sua própria casa, que fica para um meio-irmão, elas são forçadas a recomeçar a vida em um chalé modesto.

É nesse cenário de incertezas financeiras e sociais que a narrativa contrapõe duas visões de mundo distintas através das protagonistas. Elinor representa a “razão”, reprimindo seus desejos, enquanto Marianne personifica a “sensibilidade”, vivendo suas paixões de forma intensa e impulsiva.

Razão e Sensibilidade: a diferença entre o livro e o filme

razão e sensibilidade
Razão e Sensibilidade mantém clima bucólico

Razão e Sensibilidade é amplamente reverenciado como um dos textos mais densos, maduros e reflexivos de toda a bibliografia da autora britânica. Depois de 30 anos da última adaptação, o filme ganha um olhar feminino extremamente tocante.

A direção de Georgia Oakley (Desejo e Reparação) utiliza essa perspectiva atualizada para explorar as nuances emocionais das irmãs Dashwood com uma sensibilidade visual impressionante. As desilusões amorosas e as expectativas frustradas da trama ganham um peso dramático.

A ambientação histórica foi mantida com um rigor estético que certamente agrada aos fãs ávidos por figurinos e cenários suntuosos. Contudo, as barreiras invisíveis do protocolo social da época foram propositalmente afrouxadas para a tela (acontece um beijo, por exemplo, antes do casamento). É exatamente esse afrouxamento sutil que permite o desenvolvimento de uma tensão romântica muito mais crível entre os casais.

Aqui é inevitável traçar um paralelo com a aclamada versão de Orgulho e Preconceito (2005) estrelada por Keira Knightley. Ambos os filmes compartilham uma característica rara no cinema de época contemporâneo. Eles conseguem captar a essência literária da autora sem recair nos clichês engessados e teatrais do gênero. A nova roupagem compreende perfeitamente que a extrema formalidade da época não precisa anular a atração dos personagens.

É bem diferente do absoluto fracasso de crítica de Persuasão, lançado recentemente pela Netflix, ainda ecoa negativamente na memória dos fãs. Naquela ocasião, a plataforma de streaming tentou modernizar o texto original com quebras de quarta parede e diálogos anacrônicos. Essa abordagem irônica acabou descaracterizando a trama original, gerando grande rejeição.

A nova versão de Razão e Sensibilidade prova justamente que a modernização mora nas atitudes e nas linguagens corporais sutis. O respeito à inteligência do espectador é a linha que separa uma adaptação memorável de um produto superficial.

A Netflix, inclusive, busca agora se redimir desse histórico conturbado com os fãs fervorosos de literatura. A plataforma já anunciou que está desenvolvendo uma nova versão do clássico Orgulho e Preconceito, que tem previsão de estreia para 3 de dezembro.

Com essa quebra de protocolo tão bem executada em tela, fica no ar a reflexão sobre o futuro do gênero. Você acha que as adaptações literárias devem flexibilizar mais as regras históricas para tornar o romance realista, ou a fidelidade total aos costumes da época é inegociável?

  • julia benvenuto foto Razão e Sensibilidade: filme atualiza o clássico sem decepcionar os leitores

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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