A série 171 – Negócio de Família estreia neste domingo (22) no Canal Universal, às 23h, com 13 episódios e uma proposta que o canal claramente quer distanciar das produções médicas e policiais que dominaram sua grade nacional nos últimos anos. Ambientada na Mooca, bairro paulistano de origem italiana com forte identidade de classe média trabalhadora, a trama acompanha dois golpistas em tempos diferentes: o pai, veterano e sem arrependimentos, e o filho, que vai escorregando para o crime sem querer admitir.
O golpe como linguagem familiar
Moreira, vivido por Norival Rizzo, é um estelionatário da velha guarda que reaparece na vida do filho Diógenes (Felipe Folgosi) depois da morte da esposa, dez anos após o abandono. Diógenes é gerente de banco com dívidas crescentes e um filho adolescente, Chicão (Giovanni de Lorenzi), que começa a observar o avô com admiração crescente, o que transforma a série numa história de transmissão de valores às avessas. O núcleo familiar está em colapso financeiro e moral ao mesmo tempo, e a chegada de Moreira acelera os dois processos.
O que distingue 171 – Negócio de Família de outras comédias brasileiras sobre golpistas é o compromisso com a verossimilhança das fraudes. A produção pesquisou esquemas reais aplicados no cotidiano urbano: cobranças falsas de fiscalização sanitária em pequenos comércios, manipulação de testemunhos em processos judiciais, estelionatos que exploram burocracia e desinformação. Não se trata de crimes glamourizados ao estilo Catch Me If You Can, mas de golpes miúdos, reconhecíveis, que qualquer morador de cidade média brasileira provavelmente já cruzou de alguma forma.
Rizzo e Folgosi no centro
Norival Rizzo tem trajetória longa em produções brasileiras de televisão e teatro, com passagens por novelas da Record e da Band, mas 171 é um dos seus papéis centrais mais extensos na televisão paga. Felipe Folgosi, que acumula trabalhos em séries como Donas de Casa Desesperadas e produções do SBT, constrói aqui um personagem que funciona como contraponto moral instável: Diógenes não é um herói, mas também não abraça o crime com naturalidade, o que cria uma tensão mais interessante do que o simples arco de redenção.
Giovanni de Lorenzi, como Chicão, fecha o triângulo geracional da série. A dinâmica entre avô carismático e neto impressionável é o coração emocional da narrativa, e é também onde a série arrisca mais: transformar um estelionatário em figura quase heroica para um adolescente sem que isso soe como apologia exige equilíbrio de roteiro e direção.
O que o Canal Universal quer com isso
O Canal Universal vinha apostando majoritariamente em franquias médicas e procedurais americanos na sua grade. Uma produção nacional original com esse perfil, cômica e ambientada num bairro específico de São Paulo, representa uma tentativa de fidelizar audiência local com conteúdo que as produções americanas não entregam: reconhecimento geográfico, humor situacional brasileiro e conflitos econômicos familiares muito específicos do país.
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A escolha da Mooca não é decorativa. O bairro tem reputação consolidada de comunidade fechada, com forte senso de pertencimento e história de pequeno comércio e imigração italiana. Usar esse ambiente como cenário para golpes aplicados dentro da própria comunidade adiciona uma camada de traição implícita que fortalece o conflito moral da série.
Com 13 episódios e golpes baseados em casos reais, 171 – Negócio de Família entra na grade com material suficiente para funcionar como retrato de uma certa malandragem urbana brasileira que raramente aparece na televisão paga. Se o ritmo segurar ao longo da temporada, a série tem chance de se tornar referência no formato de comédia nacional para canais a cabo, um espaço historicamente dominado por importações.

