Lançada pela Netflix em 2025, Sintonia 5ª temporada encerra a trajetória de um dos projetos mais relevantes da plataforma no Brasil. A série criada por Konrad Dantas, o KondZilla, com direção de Guilherme Petit e Renata Barbosa, estreou em 2019 e rapidamente se tornou um marco na representação periférica dentro do streaming global. A produção foi a primeira série brasileira original da Netflix filmada inteiramente em São Paulo e nas comunidades do entorno, e serviu como vitrine internacional para o funk e para narrativas que saíam do eixo Rio-carioca dominante nas ficções nacionais.
Ao longo das temporadas, Sintonia construiu uma base sólida de audiência. A primeira temporada figurou entre os dez títulos mais assistidos no Brasil nas semanas seguintes ao lançamento, e o sucesso motivou a renovação em bloco das temporadas seguintes. O projeto ajudou a consolidar KondZilla, já o maior produtor de clipes de funk do país com mais de 65 milhões de inscritos no YouTube em seu canal principal, como nome relevante também no mercado audiovisual narrativo, algo que poucos conseguem ao migrar do videoclipe para a ficção seriada. A série contou com o apoio do Fundo Setorial do Audiovisual e foi desenvolvida em parceria com a produtora Renata Barbosa, o que reforçou o enraizamento do projeto nas estruturas do audiovisual brasileiro independente, não apenas nas engrenagens da plataforma.
O elenco principal, formado por Jottapê, Bruna Mascarenhas e Christian Malheiros, cresceu junto com a série. Malheiros, em particular, ganhou projeção internacional após sua atuação em Marighella, de Wagner Moura, lançado em 2021, o que aumentou o interesse externo pela série e reforçou a credibilidade do projeto perante crítica e público especializado. Bruna Mascarenhas, por sua vez, usou a visibilidade de Sintonia para expandir sua carreira para projetos publicitários e outras produções do streaming nacional, consolidando um caminho que a série abriu de forma direta.
No contexto dessa quinta e última temporada, a trama se aprofunda em um período histórico específico: o Rio de Janeiro dos anos 1990. A escolha não é aleatória. A década foi marcada por uma escalada brutal da violência armada nas favelas cariocas, pela consolidação do Comando Vermelho e de facções rivais, e por episódios de violência policial que entraram para a história, como a Chacina de Vigário Geral em 1993 e a Chacina da Candelária no mesmo ano. É dentro desse cenário documentado e tenso que Evandro, jovem da favela tentando manter uma vida dentro da lei, perde o irmão para a violência policial e decide cruzar a linha para o tráfico em busca de vingança.
A narrativa segue uma estrutura clássica do gênero, conhecida em produções como Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles que retratou o mesmo período e se tornou referência mundial sobre a periferia brasileira, indicado ao Oscar em quatro categorias em 2004. A série, porém, trabalha com episódios, o que permite um desenvolvimento mais lento das motivações do personagem e das consequências de suas escolhas, algo que o formato cinematográfico comprime por necessidade. A decisão de encerrar Sintonia com um arco ambientado nos anos 1990 sugere uma tentativa de contextualizar historicamente os temas que a série explorou desde o início, mostrando as raízes do presente que o público acompanhou nas temporadas anteriores. O recurso do flashback de época também sinaliza uma aposta de produção mais cara em reconstituição de cenários, figurinos e ambientação sonora, algo que a Netflix vem autorizando em finais de séries brasileiras com histórico de audiência comprovado.
A recepção crítica de Sintonia sempre foi dividida entre o reconhecimento da representatividade e ressalvas sobre o ritmo narrativo em certas temporadas. A terceira temporada, por exemplo, recebeu avaliações mais mornas em comparação às anteriores, o que gerou debate sobre como sustentar a qualidade ao longo de múltiplos ciclos. A quinta chega com a missão de fechar esse ciclo com consistência e entregar um desfecho à altura do que a série representou para a ficção periférica brasileira no streaming, um espaço que ela ajudou a abrir e que hoje abriga produções como Morenal e outras apostas regionais da plataforma.




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