Peaky Blinders estreou na BBC Two em setembro de 2013 e, nos primeiros episódios, enfrentou audiências modestas no Reino Unido, com cerca de 2,4 milhões de espectadores. O número parecia pouco animador, mas a série encontrou seu público real na Netflix, plataforma que a distribuiu globalmente a partir de 2016 e transformou Thomas Shelby em um fenômeno cultural que atravessou fronteiras com velocidade surpreendente. Quando a sexta e última temporada foi ao ar na BBC One em 2022, o programa já havia se tornado uma das propriedades mais valiosas da emissora britânica, com merchandising, trilhas sonoras e até linhas de moda inspiradas na estética dos anos 1920 de Birmingham.
A série acompanha Thomas Shelby e seus irmãos Arthur, John e Ada ao voltarem para os becos de Small Heath depois de servirem ao exército britânico na Primeira Guerra Mundial. O trauma das trincheiras moldou cada decisão que Thomas toma, e o criador Steven Knight usou esse pano de fundo histórico com precisão. Knight, que também escreveu Locke e Eastern Promises, construiu a narrativa em torno de um detalhe real: gangues chamadas Peaky Blinders de fato existiram em Birmingham entre o final do século XIX e o início do XX, embora o período retratado na série seja ligeiramente posterior ao auge histórico do grupo.
Thomas, interpretado por Cillian Murphy em uma das performances mais consistentes da televisão britânica da última década, lidera a gangue com inteligência fria e ambição que não cabe dentro dos limites de Birmingham. O personagem não se contenta em controlar apostas ilegais e distribuição de bebidas na cidade. Ele enxerga cada obstáculo, seja o inspetor Chester Campbell enviado de Belfast, seja rivais como a máfia italiana ou a nobreza britânica, como peças a serem movidas ou eliminadas em um jogo maior. Essa lógica de expansão constante é o motor narrativo de todas as seis temporadas.
Murphy levou anos para ganhar reconhecimento proporcional ao trabalho entregue na série. O ator irlandês já havia atuado em 28 Days Later e na trilogia The Dark Knight de Christopher Nolan, mas foi Peaky Blinders que consolidou sua posição de protagonista absoluto. O Bafta e o Globo de Ouro vieram depois, em 2024, pelo filme Oppenheimer, também de Nolan, mas a base desse reconhecimento foi construída ao longo de uma década interpretando Shelby.
A produção, gravada principalmente em locações no norte da Inglaterra e em estúdios em Birmingham, custou entre três e cinco milhões de libras por episódio nas temporadas finais, reflexo direto do sucesso global que justificou o investimento crescente da BBC. O elenco de apoio, com nomes como Helen McCrory, Paul Anderson e Tom Hardy, contribuiu para uma densidade dramática que a crítica reconheceu desde cedo. O Guardian e o The Independent classificaram a segunda temporada como um dos melhores momentos da televisão britânica em 2014.
Steven Knight confirmou que um filme para encerrar definitivamente a história de Thomas Shelby está em desenvolvimento, com Cillian Murphy comprometido com o projeto. A data de produção ainda não foi oficializada, mas a expectativa é que as gravações comecem ainda em 2025. Para quem acompanhou a trajetória da família Shelby desde os becos de Small Heath até os corredores do Parlamento britânico, o encerramento em formato de longa-metragem parece a única conclusão à altura do que a série construiu.



























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