Pico da Neblina estreia neste domingo (4) às 21h na HBO com uma premissa que, em 2014, quando o projeto começou a ser desenvolvido, soava mais como especulação do que ficção: e se a maconha fosse legalizada em São Paulo? Cinco anos depois, o debate ainda não se resolveu no Brasil, e a série chega num momento em que o tema ganhou ainda mais carga política.
Um São Paulo que poderia ter sido
A série acompanha Biriba (Luis Navarro), jovem traficante paulistano que decide migrar para o mercado legal depois da legalização. O parceiro de negócios é Vini (Daniel Furlan), investidor sem experiência na área, o que gera atrito suficiente para sustentar uma temporada inteira. Ao longo dos dez episódios, cada um com cerca de uma hora de duração, Biriba precisa navegar tanto pelas armadilhas do empreendedorismo quanto pela pressão do seu passado no crime, personificado na figura de Salim (Henrique Santana), amigo que optou por continuar na ilegalidade.
O que diferencia Pico da Neblina de outras produções que abordam drogas é o ângulo especulativo. A série não reconta uma história real nem dramatiza o tráfico como ele existe hoje. Ela constrói uma linha do tempo alternativa e examina as consequências dessa mudança para diferentes camadas sociais: o ex-traficante que quer formalizar o negócio, o investidor que enxerga oportunidade, o criminoso que perde mercado. O diretor geral Quico Meirelles descreveu o projeto como “um exercício de futurologia” em entrevista coletiva de imprensa.
O projeto que esperou a realidade alcançar
O desenvolvimento de Pico da Neblina começou em 2014, e a equipe trabalhou durante anos com a possibilidade concreta de que a legalização acontecesse antes da estreia, prevista para 2019. Não aconteceu, mas o atraso não esvaziou a premissa, pelo contrário: o Brasil chegou a 2019 mais dividido do que em qualquer ponto recente, e uma série sobre maconha legalizada num contexto de polarização política tem mais atrito cultural do que teria numa janela mais tranquila.
O diretor Fernando Meirelles, que assina a direção junto a Quico Meirelles e tem no currículo Cidade de Deus (2002) e a série Cidade dos Homens para a Globo, fez questão de deixar claro que Pico da Neblina não defende nem condena a legalização. “Ela traz o assunto à tona e aviva uma conversa que é sempre urgente no Brasil. Com argumentos dos dois lados”, disse. Para Quico, a polarização atual funciona como amplificador orgânico para a divulgação da série.
O elenco reúne nomes de trajetórias bem distintas. Daniel Furlan é conhecido pelo público jovem principalmente pelo Choque de Cultura, série de comédia do canal Porta dos Fundos que virou fenômeno no YouTube. Henrique Santana tem passagens por produções como Vai que Cola e trabalhos no teatro paulistano. Luis Navarro, que carrega o peso dramático central como Biriba, tem atuação mais voltada ao teatro e a produções independentes. O elenco de apoio inclui Leilah Moreno, Teca Pereira, Bruno Giordano, Sabrina Petraglia e Maria Zilda Bethlem, atriz com mais de quatro décadas de carreira e presença recorrente em produções da Globo e do cinema nacional.
Ficção nacional com alcance global
A HBO confirmou distribuição de Pico da Neblina para mais de 70 países, o que coloca a série num patamar de visibilidade incomum para ficção brasileira em TV paga. Para comparação, Os Ausentes, outra produção nacional da HBO, teve distribuição mais restrita. A escala de distribuição sugere que o canal aposta na premissa como produto exportável, não apenas como conteúdo local.
Para quem assiste séries sobre drogas e crime com regularidade, Pico da Neblina propõe algo que Breaking Bad e Narcos não tentaram: mostrar o que acontece depois que o Estado decide parar de perseguir o mercado. É esse deslocamento que vai definir se a série tem algo novo a dizer, ou se o cenário futurístico é apenas embalagem para uma história de ascensão e queda já conhecida.
André Natali é graduado em Audiovisual pela Universidade de Brasília (UnB) e possui formação técnica em Direção Cinematográfica pela Academia Internacional de Cinema (AIC) de São Paulo. Com sólido conhecimento técnico em linguagem visual e estruturas narrativas, ele utiliza sua formação prática de set para enriquecer o debate sobre produções televisivas.
No Pop Séries, é o especialista responsável pelas análises aprofundadas de seriados épicos, ficção científica, dramas históricos e grandes adaptações do cinema para a TV.

