A Netflix confirmou o encerramento de BoJack Horseman após a sexta temporada, dividida em dois blocos: os primeiros episódios estrearam em 25 de outubro de 2019, e a segunda leva chegou em 31 de janeiro de 2020.
BoJack Horseman estreou em agosto de 2014 como uma aposta pouco óbvia da Netflix: uma animação adulta sobre um ator equino em crise existencial, criada por Raphael Bob-Waksberg e com design visual de Lisa Hanawalt. A primeira temporada recebeu críticas divididas, mas a série encontrou o seu ritmo na segunda, quando passou a abordar depressão, vício, trauma e autopiedade com uma seriedade que a maioria das produções live-action evitava. O resultado foi uma base de fãs leal e uma reputação crescente entre críticos, consolidada por episódios como “Fish Out of Water” — o quinto da terceira temporada, praticamente sem diálogos, que se tornou um dos mais comentados da história recente da animação americana.
A premissa central gira em torno de BoJack Horseman, cavalo que protagonizou o sitcom fictício Horsin’ Around nos anos 1990 e passa o presente tentando recuperar relevância em Hollywood, com o auxílio do parceiro Todd Chavez e da agente Princesa Carolyn. O que parecia ser paródia virou estudo de personagem. Ao longo de seis temporadas, a série acumulou três indicações ao Primetime Emmy na categoria de animação e colocou o formato num patamar de prestígio que abriu caminho para outras produções da Netflix no segmento.
BoJack Horseman: quem dá voz ao personagem
Will Arnett, que já carregava no currículo o papel de Gob Bluth em Arrested Development, interpreta BoJack com uma mistura de charme e autodestrutividade que rendeu ao ator o reconhecimento mais sólido da carreira em voz. Ao lado dele, Amy Sedaris como Princesa Carolyn, Aaron Paul como Todd e Alison Brie como a escritora Diane Nguyen formam um elenco que, ao longo dos anos, transformou personagens secundários em arcos tão complexos quanto os do protagonista. Paul, que vinha do fim de Breaking Bad em 2013, encontrou em Todd um contraponto quase terapêutico à intensidade de Jesse Pinkman.
A criação de Bob-Waksberg partiu de uma conversa com a Netflix antes da plataforma ter qualquer animação original no catálogo. O showrunner levou a série até o fim sem troca de comando criativo, o que é raro no modelo de streaming e explica, em parte, a coerência tonal entre a primeira e a última temporada.
O cancelamento não veio acompanhado de queda de audiência divulgada pela Netflix, que mantém seus números internos fora do alcance público. Mas o momento é significativo: a série encerrou o ciclo antes de se desgastar, algo que produções de streaming raramente conseguem fazer com elegância. A decisão foi descrita pelo próprio Bob-Waksberg como mútua, embora o criador tenha deixado claro em entrevistas que preferia terminar a série a esticá-la.
O legado mais concreto de BoJack Horseman está no que ela normalizou. Antes dela, animações adultas americanas operavam majoritariamente no registro de comédia cínica, com The Simpsons, Family Guy e South Park como referências dominantes. BoJack demonstrou que o formato suportava narrativa serializada densa e personagens sem redenção garantida. Big Mouth, Tuca & Bertie e Inside Job, todas da Netflix, chegaram depois e devem fazer parte do seu espaço na grade do terreno que a série de Bob Waksberg preparou.
A sexta temporada retoma BoJack num centro de reabilitação, o que sugere que a série vai encerrar com a mesma honestidade desconfortável que a definiu. Para quem acompanhou desde 2014, é menos um fim do que uma prestação de contas.
Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.

