O GNT estreia Animal em 6 de agosto, às 23h, com uma aposta que destoa do perfil habitual do canal. A série de suspense ambienta uma história de identidade e violência num pequeno município gaúcho, território distante do universo que consolidou a grade do canal ao longo de mais de duas décadas.
A premissa de Animal gira em torno de João Paulo Gil, um biólogo forense que volta à cidade onde nasceu para entender o próprio passado. O personagem tem teriantropia, condição raramente explorada na ficção televisiva brasileira: uma forma de esquizofrenia em que o paciente acredita se transformar em animal, desenvolvendo instintos aguçados e perdendo controle sobre os próprios atos. “Ele tem surtos e não tem memória do que fez. Lá, ele encontra um ambiente hostil por causa do passado de seu pai”, explicou Edson Celulari, que vive o protagonista, durante coletiva de imprensa.
O cenário escolhido é Minas do Camaquã, município no sul do Rio Grande do Sul com menos de 4 mil habitantes, conhecido pelo ciclo da mineração de cobre que entrou em colapso nos anos 1990 e deixou marcas visíveis na paisagem e na arquitetura local. O criador Paulo Nascimento descreve a locação como um personagem em si mesma, e a fotografia da série parece confirmar a afirmação: rodada com apenas uma câmera em locações reais, a produção tem uma textura documental que se aproxima mais do cinema do que do padrão televisivo nacional.
A comparação com O Auto da Compadecida e Histórias que Só Existem Quando Lembradas feita pela equipe não é casual. Ambas as obras usaram o interior brasileiro como matéria estética, não apenas como pano de fundo, e alcançaram reconhecimento crítico além do público imediato. Animal tenta o mesmo movimento num formato seriado, o que exige sustentar essa coerência visual por vários episódios.
Uma ideia que demorou dois anos para encontrar o lugar certo
Paulo Nascimento passou dois anos pesquisando temas antes de chegar à teriantropia. O projeto foi concebido originalmente para a televisão aberta, mas acabou migrando para o GNT, canal a cabo do Grupo Globo voltado historicamente para o público feminino adulto, com programação concentrada em lifestyle, relacionamentos e talk shows. A chegada de Animal ao canal representa uma mudança de direção editorial relevante, ainda que isolada.
Nascimento cita Breaking Bad como referência direta para as escolhas de câmera, incluindo o uso de GoPro para criar pontos de vista incomuns dentro das cenas. A série da AMC usou o recurso de forma sistemática para colocar o espectador dentro de situações físicas extremas, e a influência aparece tanto na estética quanto na ambição narrativa de Animal.
Edson Celulari está longe de ser uma aposta de risco para o papel. Com carreira construída em novelas da Globo desde os anos 1980, incluindo títulos como Cambalacho e Rainha da Sucata, o ator tem migrado progressivamente para projetos de dramaturgia mais densa. Cristiana Oliveira, que vive a prefeita Mariana Gomes, também levantou a referência americana durante as entrevistas de divulgação, sugerindo que o elenco assimilou a proposta estética da produção. O restante do elenco inclui Fernanda Moro, Leonardo Machado, Nelson Diniz, Clemente Viscaíno, Marcos Breda e José Vitor Castiel.
O timing de Animal não é trivial. O avanço das plataformas de streaming ao longo da última década reduziu a tolerância do público a produções televisivas que entregam menos em termos de ambição visual e narrativa. Séries brasileiras que conseguiram competir nesse ambiente, como Desalma e Arcanjo Renegado, demonstraram que há audiência disposta a acompanhar ficção de gênero nacional quando a execução sustenta a proposta.
Animal chega com uma identidade visual definida, um elenco experiente e um tema de partida incomum para a televisão brasileira. Se a narrativa conseguir manter a coesão estabelecida na premissa, a série tem condições reais de ser o projeto que reposiciona o GNT como espaço para drama de gênero, e não apenas como exceção na própria grade.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.



tenho acompanhado com ansiedade a divulgação desta série. parece que vem algo realmente novo por aí.
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