As Seguidoras estreia no dia 6 de março no Paramount+, e com ela o serviço de streaming marca um ponto histórico: é a primeira série original brasileira da plataforma. A produção vem do Porta dos Fundos, com direção de Mariana Youssef e Mariana Bastos e produção executiva de João Vicente de Castro.
A influenciadora que mata por likes
A premissa é direta: Liv (Maria Bopp) é uma influenciadora digital disposta a cometer assassinatos para crescer nas redes sociais. Seu alvo de obsessão é Ananda (Raissa Chaddad), rival com quatro vezes mais seguidores, com quem mantém uma falsa amizade pública. O conflito se complica quando a podcaster de true crime Antonia (Gabz) começa a investigar os crimes e ameaça expor tudo. São seis episódios, com pontas soltas deliberadamente deixadas abertas para uma possível segunda temporada.
A criadora Manuela Cantuária partiu de uma insatisfação com o gênero: séries de serial killer costumam girar em torno de homens, seja o assassino ou o investigador. Em As Seguidoras, os dois polos são femininos. A questão que a série propõe não é só “como uma mulher mata”, mas como uma mulher age dentro de uma estrutura de vigilância, exposição e vaidade que as redes sociais tornaram cotidiana. “Séries sobre serial killers são protagonizadas por homens, existe a figura do detetive e dos investigadores. A nossa ideia foi questionar como a mulher se comporta dentro desse contexto específico”, disse Cantuária.
As referências declaradas são duas séries que souberam equilibrar tensão e humor sem escolher um lado: Killing Eve, da BBC America, que transformou a assassina Villanelle, vivida por Jodie Comer, em um dos personagens femininos mais originais da televisão recente, e Barry, da HBO, que usou um matador de aluguel tentando ser ator para explorar identidade, performance e violência com leveza desconcertante. Os dois títulos foram sucesso de crítica e de público, e a comparação posiciona As Seguidoras num território que o Brasil ainda não havia ocupado com uma produção original de streaming.
Quem está por trás de Liv
Maria Bopp não chegou ao papel sem bagagem específica. A atriz ficou conhecida por interpretar Bruna Surfistinha no filme de 2011, mas nos últimos anos construiu uma presença digital própria com o perfil Bloguerinha do Fim do Mundo, no qual critica a positividade tóxica e a performatividade das redes. Com mais de um milhão de seguidores, ela fala do tema com autoridade vivida: “Fiquei louca, produzindo conteúdo para chegar em 1 milhão e o que aconteceu? Nada, minha vida continuou igual.”
Esse histórico pessoal informou diretamente sua construção da personagem. O desafio que Bopp se impôs foi habitar Liv sem julgá-la. A chave que encontrou foi a seguinte: tanto a faceta de influenciadora quanto a de serial killer de Liv são movidas pela mesma necessidade de reconhecimento. O anonimato, para a personagem, é o verdadeiro pesadelo, não o crime.
Gabz, que vive Antonia, também trabalhou a ambiguidade da sua personagem. A podcaster investiga Liv, mas a própria atriz desconfia das motivações dela: “Ninguém sabe se ela faz isso para alimentar o seu ego. Ela quer resolver o crime ou ter assunto para o podcast?” É uma pergunta que a série parece não querer responder com pressa. O elenco ainda conta com Victor Lamoglia, Domenica Dias, Nataly Neri, Tati Tiburcio e Tatsu Carvalho.
O que está em jogo para o streaming brasileiro
O Porta dos Fundos, que há anos é referência em comédia digital no Brasil, agora entra num formato mais longo e narrativamente complexo. Para o Paramount+, a série funciona como aposta de identidade local numa plataforma que ainda disputa espaço no mercado brasileiro com concorrentes com catálogos nacionais mais consolidados.
Para o espectador, o que importa é que As Seguidoras chega propondo algo que poucos thrillers nacionais tentaram: usar a estética das redes sociais, com seus rituais de exposição e performance, como motor dramático de uma história de crime. Se der certo, o modelo pode abrir caminho para mais produções que olhem para o Brasil digital com o mesmo olho clínico que Killing Eve teve para o espionagem europeia.

