Lili, a Ex: série cria versão bem-humorada dos quadrinhos para a TV

Lili, a Ex estreia nesta quarta-feira (24), às 22h30, no GNT, e marca a primeira vez que o canal aposta em uma série baseada em quadrinhos. O movimento acompanha uma tendência que já rendeu franquias consolidadas na TV americana, como The Walking Dead, Constantine e Arrow, mas aqui a fonte é bem mais doméstica: as tirinhas de Caco Galhardo, publicadas há mais de duas décadas em veículos como a Folha de S.Paulo e conhecidas pelo humor ácido sobre relacionamentos e neuroses cotidianas.

A obsessão como combustível narrativo

A premissa é simples e funciona exatamente por isso. Lili, vivida por Maria Casadevall, se muda para o apartamento ao lado do ex-marido Reginaldo, papel de Felipe Rocha, com o objetivo declarado de reconquistá-lo. Reginaldo elabora palavras cruzadas para viver, é metódico, previsível, e quer distância. Lili é o oposto em cada uma dessas características. A série extrai o humor dessa colisão sem precisar transformar nenhum dos dois em vilão.

O que diferencia Lili, a Ex de outras comédias românticas da TV brasileira é o tratamento dado às obsessões da protagonista. Espionar o ex pelas redes sociais ou monitorar seus compromissos não é apresentado como falha moral, mas como comportamento reconhecível, amplificado até o absurdo. Casadevall, que veio de Malhação e ganhou projeção em Em Família (2014, Globo), descreve o único desafio do papel como “não deixar Lili uma mala”. Felipe Rocha, por sua vez, define a história como uma “libertação da ditadura da relação perfeita”, o que indica que o roteiro não poupa Reginaldo de suas próprias contradições: ele reclama da ex, mas admite uma sensação de segurança com a presença dela.

Para Galhardo, que assiste pela primeira vez a uma adaptação do próprio trabalho para a TV, o material original oferece “um universo muito rico e presente sobre as obsessões humanas”. O cartunista acompanhou o desenvolvimento da série, o que tende a reduzir o atrito comum entre autores de quadrinhos e produções audiovisuais que reinterpretam seus personagens.

A O2 Filmes é uma escolha técnica que cria identidade

A produção fica por conta da O2 Filmes, casa responsável por trabalhos como Cidade de Deus (2002) e pela publicidade brasileira de maior circulação internacional, o que coloca Lili, a Ex em um patamar de acabamento pouco comum para séries de canal fechado no Brasil. A direção é de Luis Pinheiro, com experiência em formato de sitcom.

A escolha técnica mais marcante é o método de filmagem em plano único sequencial com poucos cortes, que cria um ritmo específico e distingue a série visualmente da maioria das produções do gênero no país. É uma aposta que exige mais dos atores em termos de precisão, mas, quando funciona, entrega cenas com energia de performance ao vivo.

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O elenco de apoio inclui João Vicente, Rosi Campos, Daniela Fontan e Milton Gonçalves, veterano com mais de seis décadas de carreira que empresta ao elenco um contraponto geracional à histeria central da trama.

O canal chegou a comparações com Modern Family e Mom na divulgação da série, dois parâmetros altos para uma estreia. Modern Family foi o drama de comédia mais premiado do Emmy por cinco anos consecutivos entre 2010 e 2014. Mom, criada por Chuck Lorre, durou oito temporadas na CBS com críticas consistentes sobre o equilíbrio entre humor e temas pesados. Colocar Lili, a Ex nessa prateleira é uma aposta de posicionamento, mas também uma medida do que o GNT enxerga como potencial da produção.

Para o espectador, o dado mais concreto é que a série chega com estrutura técnica, elenco testado e material de origem com identidade própria. Se a execução corresponder ao que a produção sugere, Lili, a Ex pode ser o primeiro formato original do GNT com vida além da primeira temporada.

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