A Amazon Prime Video estreou 5X Comédia com uma proposta que poucos projetos brasileiros tentaram durante a pandemia: fazer humor sobre o isolamento enquanto o isolamento ainda estava acontecendo. A série chegou à plataforma em abril de 2021, gravada inteiramente de forma remota, com atores dirigindo câmeras nos próprios apartamentos e familiares operando equipamentos de som.
Cinco episódios, cinco versões do mesmo colapso
Cada episódio é independente e centrado em um personagem diferente, todos navegando a pandemia de ângulos opostos. Edgar é o executivo financeiro preso no apartamento de luxo que usa o porteiro como extensão dos próprios privilégios, solicitando favores cada vez mais absurdos. João é o hipocondríaco que transforma a família em refém dos próprios protocolos de segurança. A estrutura de antologia permite que a série cubra um espectro amplo sem precisar sustentar uma narrativa única, o que funcionou tanto como solução criativa quanto como solução logística, dado o ambiente de produção.
A criadora Monique Gardenberg, que tem no currículo o filme Jogo Subterrâneo e passagens por séries nacionais de prestígio, descreveu os bastidores como um exercício constante de improvisação técnica. Em um dos episódios, com parte do elenco em Florianópolis e parte em São Paulo, uma queda de internet levou Gardenberg a dirigir a atriz Katiuscia Canoro por leitura labial, em tempo real, pela tela do computador. Familiares dos atores foram treinados às pressas para operar iluminação e captura de som, o que deu à série uma textura visual irregular que, ao mesmo tempo, reforça a estética do confinamento.
O elenco e o que cada um trouxe de real
Gregório Duvivier, que interpreta João, o hipocondríaco, é um dos nomes mais associados à comédia política brasileira recente, conhecido pelo Greg News no HBO. Ele admitiu identificação direta com o personagem, descrevendo fases de paranoia genuína durante o isolamento, a lógica circular de rastrear possíveis contágios em interações cotidianas. A observação dele sobre os líderes políticos, de que a paranoia do personagem seria bem-vinda em quem detém poder, é o tipo de comentário que ancora o humor da série em algo mais incisivo.
Gabriel Godoy, escalado para viver Edgar, o playboy descolado da realidade, construiu o oposto: um personagem com quem não sente nenhuma afinidade pessoal. Godoy tem presença consolidada em produções da Globo e no cinema nacional, mas o papel aqui exige um registro diferente, o de alguém que atravessa a crise sem que ela o atravesse. A pergunta que ele coloca no episódio, se a pandemia não acelerou a desigualdade em vez de frear, é a crítica mais direta que a série faz sem abandonar o tom de comédia.
Katiuscia Canoro, Flávia Alessandra e Leandro Hassum completam o elenco dos episódios restantes, cada um carregando um recorte diferente do Brasil em quarentena.
O que a série registra que os dados não capturam
5X Comédia foi desenvolvida dentro da estratégia da Amazon de ampliar produções originais brasileiras, que incluiu títulos como Manhãs de Setembro e Dom no mesmo período. A plataforma apostou no formato de antologia remota como resposta às limitações de produção de 2020 e 2021, quando gravações convencionais estavam inviabilizadas ou drasticamente reduzidas no país.
O que diferencia a série de outros produtos feitos durante a pandemia é o recorte temporal. Ela não tenta historicizar o período com distância segura: foi escrita, gravada e lançada enquanto o Brasil ainda acumulava mortes em ritmo acelerado. Isso cria um efeito de reconhecimento imediato que produtos posteriores sobre o mesmo tema dificilmente vão conseguir replicar. A comédia funciona como registro documental involuntário, e esse é o argumento mais forte a favor de assistir agora, antes que a distância torne a identificação apenas nostálgica.
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