Sandman chegou à Netflix em agosto de 2022 com o peso de uma adaptação que o mercado considerava impossível. A HQ de Neil Gaiman, publicada pela DC/Vertigo entre 1989 e 1996, acumulou décadas de tentativas fracassadas em Hollywood, incluindo um projeto que ficou preso em desenvolvimento no final dos anos 1990 com roteiros que desagradaram profundamente o autor. A série finalmente saiu do papel com Gaiman como produtor executivo central, ao lado de David S. Goyer e Allan Heinberg, garantindo uma fidelidade ao material original que as versões anteriores nunca teriam entregue.
A premissa acompanha Morpheus, o Rei dos Sonhos e senhor do Reino do Sonho, interpretado por Tom Sturridge. Em 1916, ele é capturado por um ocultista britânico chamado Roderick Burgess, que pretendia aprisionar a Morte para ganhar vida eterna, mas acabou retendo o irmão errado. Morpheus passa décadas preso em um globo de vidro, enquanto seu reino entra em colapso e seus instrumentos de poder são dispersos pelo mundo dos vivos. Quando finalmente escapa, no século XXI, ele precisa percorrer mundos distintos, do inferno à Londres contemporânea, para recuperar seu elmo, sua bolsa de areia e seu rubi, cada um deles nas mãos de personagens que os usaram de formas destrutivas e imprevisíveis.
Tom Sturridge chegou ao projeto sem o histórico de um nome óbvio para o papel. Conhecido principalmente por trabalhos teatrais em Londres e pelo filme On the Road de 2012, ele precisou convencer uma base de fãs extremamente protetora com o material. A recepção foi positiva. Críticos destacaram a contenção do ator como escolha acertada para um personagem que existe além da escala humana de emoções. No Rotten Tomatoes, a primeira temporada fechou com 86% de aprovação da crítica e 90% do público, números que validaram a aposta da Netflix em um projeto com orçamento estimado acima de 15 milhões de dólares por episódio.
O elenco ao redor de Sturridge funcionou como argumento adicional para a qualidade da produção. Gwendoline Christie interpreta Lúcifer com uma frieza calculada que redefine a figura do diabo dentro do universo da série. Boyd Holbrook entrega um dos vilões mais perturbadores da temporada como o Corintianos, um ser criado a partir dos pesadelos de Morpheus que escapou durante o aprisionamento do rei. Kirby Howell-Baptiste assume o papel de Morte, irmã de Morpheus, em apenas um episódio, e gerou uma das reações mais intensas da temporada entre fãs e críticos.
A Netflix cancelou e depois renovou a série em circunstâncias que expuseram as pressões internas da plataforma sobre métricas de retenção. A segunda temporada entrou em produção, mas foi interrompida pela greve dos roteiristas e atores em Hollywood em 2023, o que atrasou consideravelmente o cronograma. Em paralelo, Neil Gaiman enfrentou acusações públicas de condutas inadequadas que complicaram o futuro da série, gerando incertezas sobre como a Netflix trataria seu nome no projeto dali em diante.
O que Sandman entregou na primeira temporada foi uma adaptação que soube distinguir fidelidade de literalidade. Gaiman e a equipe ajustaram personagens, atualizaram contextos e incluíram representatividade sem sacrificar a estrutura mitológica que tornou a HQ referência dentro do quadrinho adulto. O resultado é uma série que funciona tanto para quem nunca tocou na HQ quanto para quem a releu várias vezes.
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