Lupin chegou à Netflix em janeiro de 2021 e quebrou recordes logo nas primeiras semanas. A série francesa acumulou 70 milhões de visualizações nos primeiros 28 dias da parte inicial, tornando-se a primeira produção em língua não inglesa a atingir esse patamar na plataforma. O número colocou o show ao lado de títulos globais como Bridgerton e The Witcher, e confirmou que o público internacional estava disposto a consumir ficção europeia com a mesma voracidade reservada às produções americanas e britânicas.
A série foi criada por George Kay e François Uzan. Kay já tinha experiência com thrillers de ação, tendo trabalhado na série britânica Killing Eve. Uzan trouxe o conhecimento do mercado audiovisual francês. A produção é da Gaumont Télévision, uma das casas mais tradicionais da França, fundada em 1895, que já havia produzido Narcos para a Netflix antes de embarcar nesse projeto.
Omar Sy interpreta Assane Diop, um homem criado lendo os romances de Maurice Leblanc sobre Arsène Lupin, o ladrão de modos aristocráticos que surgiu na literatura francesa em 1905. Sy não é um nome novo: ele ganhou o César de Melhor Ator em 2012 por Intocáveis, longa que se tornou o filme francês mais assistido fora da França até então. A escolha dele para o papel central foi estratégica, já que o ator tem carisma natural diante das câmeras e credibilidade internacional acumulada ao longo de mais de uma década de carreira.
A trama acompanha Assane Diop como um adulto determinado a expor a família Pellegrini, que décadas antes armou uma acusação falsa contra Babakar, seu pai senegalês, funcionário da mansão dos Pellegrini. Babakar foi preso por um roubo que não cometeu e morreu na cadeia. Assane cresceu nos sistemas de acolhimento franceses, mas nunca abandonou a obsessão por justiça. Cada golpe que ele aplica ao longo dos episódios é elaborado como um capítulo de Lupin, com disfarces, manipulação de situações e leituras precisas do comportamento humano.
A série também funciona como um comentário sobre raça e classe na França contemporânea. Assane circula invisível entre os ricos porque é tratado como invisível, e usa exatamente esse preconceito como ferramenta. A produção não torna esse aspecto panfletário, mas tampouco o ignora. Ele está presente na construção das cenas e na dinâmica entre os personagens.
A Netflix dividiu a produção em partes para manter o engajamento do público. A parte dois estreou em junho de 2021, apenas cinco meses após a primeira, e a parte três chegou em outubro de 2023 depois de um hiato maior causado por questões de roteiro e produção. Cada parte tem entre cinco e sete episódios, com ritmo de filme e orçamento compatível com produções de ponta.
A recepção crítica foi positiva de forma consistente. No Rotten Tomatoes, as duas primeiras partes mantiveram aprovação acima de 90% entre os críticos. A série foi elogiada pela direção de fotografia, pela performance de Sy e pela forma como atualizou uma figura literária clássica sem perder o espírito original. Para um personagem criado há mais de cem anos, Lupin demonstrou uma capacidade rara de se adaptar ao presente sem parecer forçado.

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