A segunda entrada da antologia de Mike Flanagan na Netflix tem data: A Maldição da Mansão Bly estreia em 9 de outubro, dando sequência ao universo iniciado por A Maldição da Residência Hill sem repetir nenhum personagem, ator no mesmo papel ou linha narrativa.
Uma governanta, duas crianças e uma casa que não deixa ninguém ir embora
A premissa parte de The Turn of the Screw, novela de Henry James publicada em 1898 e considerada um dos textos fundadores do horror psicológico em língua inglesa. Na adaptação, uma jovem governanta americana chega à Bly Manor, uma propriedade rural inglesa, para cuidar de dois órfãos. O que começa como emprego tranquilo se transforma em algo mais perturbador à medida que os fantasmas do ex-mordomo Peter Quint e da ex-governanta Miss Jessel começam a influenciar as crianças. A narradora conta a história em retrospecto, o que desde o início indica que algo de grave aconteceu, sem revelar o quê. James usava essa estrutura para manter a ambiguidade sobre se os fantasmas eram reais ou produto da mente perturbada da protagonista. Flanagan, ao que tudo indica, não vai fugir dessa tensão.
A escolha do texto de James não é arbitrária. Hill House foi baseado no romance homônimo de Shirley Jackson, de 1959. Flanagan constrói a antologia sobre clássicos da literatura de horror, o que dá à série uma camada de diálogo com a tradição do gênero que a distingue de produções que simplesmente empilham sustos.
O elenco muda, mas a equipe de confiança fica
Flanagan manteve vários atores da primeira temporada em papéis completamente novos. Victoria Pedretti, que interpretou Nell Crain em A Maldição da Residência Hill, assume o papel central de Dani Clayton, a governanta. Oliver Jackson-Cohen, o Luke Crain da temporada anterior, vive Peter Quint. T’Nia Miller, Henry Thomas e Kate Siegel também retornam ao universo da antologia com novas personagens.
A prática de reutilizar elenco em papéis diferentes é comum em antologias de prestígio, e Ryan Murphy consolidou o modelo com American Horror Story na FX. Flanagan, porém, trabalha com um elenco menor e ciclos mais curtos, o que cria uma sensação de grupo coeso sem a dispersão que marcou algumas temporadas de Murphy.
Séries de terror assustadoras que você precisa assistir
A Maldição da Residência Hill foi lançada em outubro de 2018 e rapidamente se tornou um fenômeno de plataforma. A Netflix não divulga dados de audiência tradicionais, mas a série apareceu em listas de fim de ano de publicações como The Atlantic, Vulture e The Guardian, e a cena do “pescoço partido” de Nell gerou cobertura espontânea em veículos fora do circuito de cultura pop. No Rotten Tomatoes, a temporada encerrou com 93% de aprovação da crítica. É esse patamar que A Maldição da Mansão Bly precisa defender.
O que está em jogo para a antologia
O formato de antologia tem um problema estrutural conhecido: a segunda entrada carrega o peso da comparação direta com a primeira, sem o benefício da surpresa. True Detective sofreu isso de forma aguda quando a segunda temporada, em 2015, não conseguiu replicar o impacto da primeira, e levou a série a um hiato de quatro anos. Residência Hill criou expectativa alta o suficiente para que A Maldição da Mansão Bly seja julgada pelo mesmo padrão, mesmo sendo uma história completamente diferente.
A ambientação inglesa muda o registro visual e atmosférico. Antes era uma casa vitoriana americana com corredores labirínticos e jumpscares calculados. A Maldição da Mansão Bly trabalha com a estética de campo aberto e névoa da ficção gótica britânica, mais próxima de Daphne du Maurier do que de Stephen King. Se Flanagan conseguir manter a profundidade emocional que transformou a franquia em algo além de uma série de terror, A Maldição da Mansão Bly tem material literário sólido o suficiente para sustentar.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

