A Odisséia, sem dúvida, é o maior filme da carreira de Christopher Nolan. Mesmo após o sucesso estrondoso de Oppenheimer nas maiores premiações do cinema, o diretor inova mais uma vez no audiovisual. O cineasta decidiu produzir o seu novo longa-metragem inteiramente gravado com a massiva tecnologia IMAX. A escolha, no entanto, redefiniu as regras nos bastidores e trouxe barreiras extremas.
Toda a estrutura para as gravações teve que ser criada especialmente para o projeto. Os desafios práticos no set foram inúmeros desde o primeiro dia de produção. As imponentes câmeras exigidas pelo formato, por exemplo, só conseguem registrar três minutos contínuos de filmagem. Após esse curto período, a equipe técnica precisava pausar e recarregar os equipamentos.
Esse limite temporal forçou o elenco de A Odisseia a entregar performances com precisão cirúrgica. Os atores tiveram que contracenar a uma distância muito maior do que o convencional. Para driblar a presença ostensiva do maquinário gigante, soluções inusitadas entraram em cena. Até espelhos gigantescos foram utilizados no estúdio para reduzir o impacto visual durante a atuação. Tudo isso foi desenhado para captar de forma crua a grandiosidade de A Odisseia. A trama adapta uma das histórias mais conhecidas, complexas e aclamadas de toda a mitologia grega.
A saga de Odisseu (Matt Damon) começa aqui exatamente 10 anos após a Guerra de Troia, conflito em que Ítaca sai vitoriosa. Contudo, essa glória militar logo cobra um preço caríssimo. Agora ele tem um difícil e tortuoso trajeto pela frente para retornar para casa. O desafio ocorre principalmente por conta do capricho dos deuses da antiguidade.
As divindades não viram com bons olhos o uso de uma oferenda sagrada para atacar o inimigo. Você com certeza sabe de qual artimanha estamos falando: a história do icônico Cavalo de Troia. Guiado por Atena (Zendaya), a deusa da sabedoria, Odisseu segue o sombrio caminho dos mares. Em sua jornada, o guerreiro acaba enfrentando ciclopes, criaturas ferozes e bruxas mitológicas.
Ao passo que tenta sobreviver, ele tenta reencontrar seu grande amor, Penélope, e se perdoar pelas atrocidades cometidas em guerra. O peso psicológico da culpa o consome por dentro. Ao mesmo tempo, a esposa tenta a todo custo evitar os pretendentes interesseiros que lotam sua casa. A tensão nos corredores de Ítaca se transforma em um thriller político. O principal objetivo dela é resguardar a vida de seu filho, o herdeiro do trono que já não é mais uma criança. Telêmaco tornou-se um alvo direto das figuras de poder.

O que esperar do filme
Mais do que uma epopeia grega focada na ação, A Odisseia de Nolan explora as consequências de uma guerra. O roteiro mostra como o desejo de poder e vingança destrói a humanidade. O longa deixa claro que não há vitoriosos, pois todos perdem parte de si mesmos em seu retorno ao lar. Os seus atos violentos mudaram completamente o mundo em que conheciam.
A sociedade antes norteada pelo respeito e pela crença nos deuses foi fraturada e não será a mesma. Odisseu entende isso e foge a todo custo de ver com os próprios olhos o que causou. Ele se esconde da realidade e do remorso, até que é colocado novamente neste caminho de dor. Diferente da história original, narrada oralmente por gerações, o filme aposta na quebra de expectativas.
A versão cinematográfica de A Odisseia aposta muito mais no simbolismo psicológico do que no amor. Não é só Penélope que move Odisseu em sua luta por sobrevivência, e vice-versa. A rainha interpretada por Anne Hathaway, aliás, ganha outros contornos além da inteligência e astúcia. Ela tem opiniões fortes e não teme demonstrá-las mesmo quando a esperança parece ter chegado ao fim.
O elenco conta com Mia Goth (Melanto), Robert Pattinson (Antínoo), John Leguizamo (Eumeu), Jimmy Gonzales (Cefeu) e Himesh Patel (Euríloco). O filme conta ainda com as participações das vencedoras do Oscar, Charlize Theron e Lupita Nyong’o, no papel de Helena.
Com uma abordagem tão crua sobre as lendas de Homero, fica o questionamento no ar. Será que a magnitude técnica de Christopher Nolan conseguirá fazer o público sentir na pele a angústia profunda de Odisseu? Com certeza, os efeitos visuais prometem impressionar.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica “A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

