Bruna Lombardi apresenta série ‘A Vida Secreta dos Casais’

A Vida Secreta dos Casais estreou aos domingos na HBO com uma proposta que mistura investigação criminal, política e terapia sexual e traz Bruna Lombardi não só na frente das câmeras, mas também como criadora. A atriz assina o roteiro ao lado do filho, Kim Riccelli, numa produção que é também um projeto de carreira calculado: depois de décadas alternando teatro, televisão e cinema, Lombardi chega à HBO com material escrito por ela mesma.

Tantra, corrupção e três casamentos mal resolvidos

A Vida Secreta dos Casais acompanha Sofia, administradora de um instituto de terapias alternativas voltado para casais em crise. Quando um de seus clientes é assassinado, ela se vê enredada num esquema que envolve políticos influentes e mercado financeiro. Dois outros personagens conduzem a investigação junto com ela: Luís, ex-policial vivido por Carlos Alberto Riccelli, e Vicente, jornalista digital interpretado por Alejandro Claveaux.

Bruna descreve a série em três camadas: o universo da sexologia e da espiritualidade do Tantra, o crime com seus desdobramentos políticos e financeiros, e o jornalismo digital como ferramenta narrativa. Sofia não é uma protagonista resolvida. Está no terceiro casamento, lida mal com os próprios problemas enquanto tenta solucionar os dos clientes, e a série promete revelar essa contradição aos poucos ao longo dos 12 episódios da primeira temporada.

Alejandro Claveaux, ator argentino radicado no Brasil com passagens por produções como Coisa Mais Linda e trabalhos no teatro paulistano, aponta o que diferencia a escrita de Bruna: os personagens acumulam contradições. O mocinho tem falhas reais, o caráter coexiste com o erro. É uma escolha narrativa que a série precisará sustentar ao longo dos episódios para não escorregar no moralismo que costuma afundar tramas policiais brasileiras.

Um set em família com currículo

A dinâmica familiar não é nova nesse grupo. Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli, casados desde 1978, já trabalharam juntos em Onde Está a Felicidade? (2011) e Amor em Sampa (2016), ambos também com Kim Riccelli na equipe. Nesta série, Carlos acumula as funções de ator e diretor, enquanto Kim divide a criação do roteiro com a mãe.

Carlos se preparou para o papel de ex-policial a partir de experiências práticas anteriores: já havia interpretado um delegado no filme Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017), produção de Silvio Tendler, que reconstituiu a Operação Lava Jato e foi um dos documentários de maior bilheteria do país naquele ano. Para o novo papel, o ator retoma esse repertório e adiciona um histórico pessoal do personagem que a trama pretende explorar.

Kim descreve a colaboração com a mãe como uma parceria de sensibilidade compartilhada, com discordâncias pontuais que não chegam a gerar conflito criativo. Para uma produção que depende de coesão de voz, essa dinâmica importa: roteiros escritos a quatro mãos frequentemente mostram costuras. Aqui, os três pilares temáticos que Bruna articula com clareza sugerem que a estrutura foi planejada antes de qualquer linha de diálogo.

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A Vida Secreta dos Casais chega num momento em que a HBO Brasil está apostando em produções originais locais para competir com o avanço do streaming. Séries como Todxs Nós e Os Ausentes testaram formatos e públicos diferentes, com recepção crítica irregular. Uma produção com Bruna Lombardi como criadora e protagonista representa uma aposta diferente: um nome de prestígio histórico na televisão brasileira sendo reposicionado num formato premium.

A questão que a série precisa responder nas próximas semanas é se os três universos que Bruna prometeu, tantra, corrupção política e jornalismo digital, vão se integrar de forma orgânica ou vão competir pelo espaço dramático. Big Little Lies, que a HBO lançou em 2017 com estrutura parecida com crime entranhado nas vidas privadas de personagens complexos, mostrou que o formato funciona quando o crime é pretexto, não destino. Se A Vida Secreta dos Casais entendeu essa lição, tem 12 episódios para provar.

  • julia benvenuto foto Bruna Lombardi apresenta série 'A Vida Secreta dos Casais'

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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