O Amazon Prime Video estreia nesta sexta-feira Desajuntados, série brasileira de comédia estrelada por Letícia Lima e Gabriel Godoy. A temporada de estreia tem sete episódios de aproximadamente 30 minutos cada.
Um apartamento pequeno demais para dois ex que se odeiam
A premissa coloca Camila, vendedora de uma loja de marketing, e Caco, engenheiro químico desempregado, de volta sob o mesmo teto depois da separação. O problema é simples e cruel: nenhum dos dois tem dinheiro para arcar sozinho com o apartamento. A solução, torcer o nariz e dividir as contas.
A série foi ambientada na Barra da Tijuca por decisão deliberada das criadoras. A co-criadora Danielle Valente explica que o bairro funciona como cenário simbólico porque representa o que ela chama de “sonho americano carioca”, um lugar onde a aparência de prosperidade costuma custar mais do que os moradores conseguem pagar. A crítica social entra aí: Desajuntados quer mostrar pessoas que se endividam para sustentar uma imagem, um comportamento que Valente descreve como “um conceito muito ultrapassado” mas ainda muito presente. A comédia, portanto, não é só sobre um casal disfuncional. É sobre a pressão de parecer bem quando tudo está indo mal, algo que ganhou contornos ainda mais nítidos nos anos de pandemia.
Gravações no Uruguai e ensaios remotos, mas a química funcionou
A produção carrega uma das marcas mais comuns das séries rodadas entre 2020 e 2021: as restrições sanitárias reescreveram a logística. As gravações aconteceram no Uruguai, e os ensaios entre o elenco foram feitos de forma remota antes das filmagens. Para uma série que depende inteiramente da dinâmica entre dois protagonistas, isso poderia ter sido um problema real.
Letícia Lima conta que não foi. A atriz, conhecida por Malhação, Segundo Sol e pela série Coisa Mais Linda, da própria Netflix, descreve a construção da relação entre Camila e Caco como algo que encontrou equilíbrio mesmo à distância. O casal vive em estado de guerra declarada, mas a série intercala esse conflito com flashbacks de momentos românticos e recaídas pontuais. “Você percebe que eles têm muita atenção entre si quando há alguma situação difícil. Eles se importam muito, e isso nos faz questionar se eles ainda se amam e estão brigando por conta da situação financeira”, disse a atriz.
Gabriel Godoy, que acumulou trabalhos em Malhação, Segundo Sol e no cinema com Bacurau, vive Caco do lado oposto: o engenheiro desempregado que perdeu o emprego e parte do status que definia sua identidade. A dinâmica entre os dois funciona porque o roteiro não trata a situação financeira apenas como pano de fundo. É o motor do conflito.
Um elenco de apoio que reforça a aposta
O elenco de apoio inclui Romulo Arantes Neto, Yuri Marçal, Danni Suzuki, Marcelo Laham, Letícia Isnard e Solange Teixeira. Nas participações especiais, aparecem Eduardo Moscovis, Totia Meirelles e Elisa Lucinda, nomes que sinalizam o tom da produção: comédia com atores de trajetória sólida no drama, o que costuma funcionar bem quando o humor depende de personagens críveis.
Desajuntados chega em um momento em que o Prime Video vem ampliando seu catálogo de produções brasileiras originais, com apostas recentes como Dom e Cangaço Novo em registros bem diferentes, de thriller policial a ação estilizada. Uma comédia romântica com crítica de classe e ambientação carioca ocupa um espaço distinto nesse catálogo.
A comparação mais direta talvez seja com Dois Irmãos, que também usou o Rio como cenário para falar de desigualdade com leveza, ou com comédias como Coisa Mais Linda, que equilibraram entretenimento e contexto social sem sacrificar o ritmo. Se Desajuntados conseguir sustentar esse equilíbrio ao longo dos sete episódios, a série tem material para ser mais do que uma comédia de situação. Tem para ser um retrato de como muita gente vive no Brasil hoje: na Barra da Tijuca, com dívida e cara de quem está bem.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

