Entrevista: Jaime Lorente fala sobre o desafio de viver um herói da Espanha em ‘El Cid’

Jaime Lorente trocou o macacão vermelho de La Casa de Papel e os corredores de Elite por armadura e espada para interpretar Rodrigo “Ruy” Díaz de Vivar em El Cid, série épica do Amazon Prime Video que estreou em dezembro de 2020. A produção espanhola, filmada majoritariamente em Castela e Leão, região onde o personagem histórico de fato viveu no século XI, custou ao redor de 10 milhões de euros por temporada, um dos maiores orçamentos já investidos numa série espanhola até aquele momento.

O cavaleiro de duas guerras e três religiões

El Cid não acompanha o herói já consagrado das crônicas medievais, mas escolhe o ponto mais arriscado da narrativa: a juventude de Ruy, quando ele ainda forja sua lealdade, seus erros e sua reputação. A ambientação no século XI é também um exercício de complexidade histórica raro no gênero épico: a série retrata a convivência e os conflitos entre cristãos, mouros e judeus na Península Ibérica durante o período conhecido como Reconquista, mostrando que as fronteiras entre aliados e inimigos eram muito mais porosas do que a versão romantizada do herói nacional costuma admitir. O Rodrigo Díaz real chegou a lutar tanto para reis cristãos quanto para soberanos mouros, detalhe que a série explora sem eufemismos.

A produção foi desenvolvida pela Amazon em parceria com a Bambú Producciones, responsável por outros títulos de prestígio na Espanha, e contou com Ángel García Ruiz e Pablo Barrera na criação. A direção dos primeiros episódios ficou a cargo de Adolfo Martínez, com supervisão visual pensada para dialogar com o padrão de produções medievais de grande escala que o público global já conhecia bem.

Lorente além do macacão

Quando La Casa de Papel explodiu globalmente na Netflix, a partir de 2017, Jaime Lorente virou um dos rostos mais reconhecíveis da ficção espanhola contemporânea. O Denver que ele construiu ali era físico, explosivo e cômico em momentos precisos. Em El Cid, o desafio era o oposto: interpretar uma figura que carrega o peso de ser patrimônio cultural de um país inteiro, com estátuas, poemas épicos do século XII e um filme estrelado por Charlton Heston em 1961 como bagagem.

Para o papel, Lorente passou meses em treinamento de esgrima histórica e equitação, além de trabalho vocal para sustentar uma dicção que soasse convincente no espanhol medieval que a série adota em alguns registros formais. Em entrevista ao Pop Séries, ele falou sobre a diferença de escala entre os projetos: enquanto La Casa de Papel e Elite operam na claustrofobia de espaços fechados e tensão psicológica, El Cid exige uma presença física que domina paisagens abertas e batalhas coreografadas com dezenas de figurantes.

Entre Jon Snow e o Cid Campeador

As comparações com Game of Thrones chegaram antes mesmo da estreia, alimentadas pelo próprio material: disputas de trono, lealdades fraturadas, guerras de territórios e um protagonista jovem cujo senso de honra frequentemente o coloca em desvantagem política. Lorente abordou a comparação com pragmatismo: reconheceu a semelhança estrutural com a trajetória de Jon Snow, personagem que também carrega uma origem obscura e uma lealdade que os outros leem como ingenuidade, mas apontou que Ruy tem ancoragem histórica documentada, o que impõe um tipo diferente de responsabilidade ao ator.

El Cid renovou para uma segunda temporada ainda em 2021, com estreia em janeiro de 2022, sinal de que a aposta do Amazon funcionou dentro das métricas da plataforma no mercado espanhol e latino. A série entrou para um movimento mais amplo de produções europeias que encontraram na Amazon e na Netflix uma viabilidade financeira que as emissoras locais raramente conseguem oferecer para projetos desse porte. Para o espectador, o que fica é uma série que trata seu herói como um homem antes de tratá-lo como um mito, o que é, no gênero épico, uma escolha menos óbvia do que parece.

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