Após ‘Assassinato no Expresso do Oriente’, Hercule Poirot retorna no filme ‘Morte no Nilo’

Morte no Nilo chega aos cinemas brasileiros trazendo Kenneth Branagh de volta ao papel de Hercule Poirot numa produção da 20th Century Studios que demorou mais do que o planejado para chegar ao público. O filme tinha estreia marcada para dezembro de 2019, foi empurrado para outubro de 2020 por causa da pandemia e acabou acumulando mais dois adiamentos antes de finalmente ser lançado.

O Nilo como palco fechado

A trama adapta o romance homônimo de Agatha Christie, publicado em 1937, considerado um dos mais bem construídos da autora em termos de estrutura de mistério. A herdeira Linnet Ridgeway, interpretada por Gal Gadot, rouba o noivo da melhor amiga, casa-se com ele e parte numa lua de mel de navio pelo Egito. O que parece um clichê romântico vira armadilha: o cruzeiro transforma-se em cenário fechado, com suspeitos acumulados e mortes em série. Christie usou o isolamento geográfico com a mesma precisão que em Assassinato no Expresso do Oriente, e Branagh, que também dirige o filme, aposta na mesma lógica de espetáculo visual como embalagem para o raciocínio dedutivo de Hercule Poirot.

A história já havia sido adaptada para o cinema em 1978, com Peter Ustinov no papel do detetive e direção de John Guillermin, e para a TV na série britânica Agatha Christie’s Poirot, com David Suchet no papel principal por 25 anos e 13 temporadas, entre 1989 e 2013. A versão de Suchet é considerada canônica por boa parte dos fãs e da crítica especializada: o ator estudou cada detalhe do personagem a partir dos textos de Christie e manteve consistência rara num papel que exige precisão quase obsessiva.

Um elenco complicado antes mesmo da estreia

Branagh reúne um elenco extenso: Annette Bening, Emma Mackey, Rose Leslie, Letitia Wright, Sophie Okonedo, Jennifer Saunders, Ali Fazal, Russell Brand e Tom Bateman, que já havia aparecido no primeiro filme como o filho do detetive Bouc. Armie Hammer, escalado para o papel do marido de Linnet, tornou-se o maior problema de relações públicas da produção. Em janeiro de 2021, o ator foi acusado de comportamento sexual abusivo por múltiplas mulheres; meses depois, uma acusação formal de estupro foi apresentada. Hammer não foi removido do filme, decisão que gerou críticas durante a divulgação, e acabou se afastando de Hollywood na sequência. Sua presença no longa criou um ruído que a campanha de marketing precisou administrar durante todo o período de promoção.

Gal Gadot, por sua vez, estava no auge da visibilidade após Mulher-Maravilha 1984, lançado no final de 2020. A escolha dela para o papel central foi um dos principais argumentos de venda do estúdio.

O peso do primeiro filme na conta do segundo

Assassinato no Expresso do Oriente, lançado em 2017 com direção e atuação de Branagh, arrecadou cerca de 352 milhões de dólares no mundo todo com orçamento estimado em 55 milhões. O resultado foi suficiente para confirmar a sequência, mas não foi um fenômeno de bilheteria. Morte no Nilo enfrentou condições mais difíceis: estreou quando o retorno do público às salas ainda era irregular, com variações grandes entre mercados, e ficou abaixo do desempenho do antecessor, encerrando a carreira nos cinemas com aproximadamente 137 milhões de dólares globalmente.

Isso não encerrou o projeto de Branagh com Hercule Poirot. Uma terceira adaptação, baseada em Hallowe’en Party, foi anunciada com o título A Haunting in Venice e estreou em 2023. Christie criou Poirot em 1920 e o personagem aparece em mais de 40 obras, tornando-se o detetive fictício mais vendido da literatura antes de ser superado por Sherlock Holmes em certas métricas de mercado. Dos intérpretes do papel, Austin Trevor foi o primeiro no cinema, nos anos 1930, mas foi Suchet quem transformou Hercule Poirot numa referência cultural duradoura. Branagh herdou um personagem com dono assumido pelo público, e cada filme precisa justificar a reinterpretação. Morte no Nilo faz isso apostando no visual antes da tensão, o que funciona como entretenimento e divide quem prefere Christie destrinchada à Christie emoldurada.

  • julia benvenuto foto Após 'Assassinato no Expresso do Oriente', Hercule Poirot retorna no filme 'Morte no Nilo'

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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