Love3: série nacional apresenta diferentes formas de relacionamentos

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Lov3 estreia nesta sexta-feira (18) no Amazon Prime Video com uma proposta que o streaming brasileiro ainda explorou pouco de forma direta: relacionamentos não-monogâmicos como eixo narrativo central, não como subplot ou curiosidade de personagem secundário.

Três irmãos, três formas de não querer o que os pais tiveram

A série acompanha Beto, Sofia e Ana, irmãos que assistem aos pais anunciarem o divórcio depois de 30 anos de casamento e, cada um à sua maneira, decidem que o modelo convencional não serve. O gatilho familiar é clássico, mas o que Lov3 faz com ele foge do roteiro esperado.

Ana tem 33 anos e retoma o relacionamento com o ex-marido sem abrir mão de outras conexões afetivas e sexuais. Sofia, 24 anos, recém-demitida, vai morar com um trisal que não a reconhece como parte da relação, o que coloca a personagem num lugar de limbo afetivo bastante específico. Beto é gay e se interessa exclusivamente por homens heterossexuais que não o veem como possibilidade. Os três arcos tratam de formas distintas de desejar fora da norma, e nenhum deles é apresentado como solução ou problema a ser resolvido.

O co-criador Felipe Braga, que tem no currículo séries como Samantha e trabalhos para a Globoplay, assina a série com atenção a um detalhe que projetos do gênero costumam negligenciar: “Mesmo sendo diferente, você se compromete com alguém e precisa olhar para o outro”, disse ele sobre a construção ética dos relacionamentos na trama. Poliamor sem responsabilidade afetiva virou clichê em produções internacionais. Lov3 parece mais interessada nas contradições do que nas soluções.

O elenco e o trabalho de chegar lá

Bella Camero, João Oliveira e Elen Clarice protagonizam a série. Camero, conhecida por Malhação e pela comédia Vai Que Cola, interpreta Sofia e conta que a preparação envolveu pesquisa direta sobre não-monogamia. “Conheço pessoas que vivem dessa maneira fora do convencional, mas ainda estou em um momento teórico de aprender novos olhares”, afirmou. A atriz resume a personagem com precisão: “Ela já tem dificuldade de se relacionar com uma pessoa só e ainda escolhe se envolver com três. Isso é ousado para a personagem.”

João Oliveira, que ganhou visibilidade em Segunda Chamada, vive Beto, o irmão cujo desejo é estruturalmente fadado à rejeição. É o arco mais arriscado dos três, porque não oferece o conforto de uma identidade política articulada. Beto não está militando por reconhecimento, está simplesmente querendo alguém que não o quer de volta, o que aproxima a série de uma linguagem mais contemporânea sobre orientação e desejo.

A direção é de Gustavo Bonafé, que trabalhou em produções da Conspiração Filmes e tem experiência com comédias dramáticas de tom urbano. Sobre Ana, Bonafé comentou que “uma relação não é suficiente em seu momento de vida” e que “somos mais felizes quando passamos por novas experiências”, o que sinaliza uma direção mais empática do que pedagógica para o material.

O que a série representa no mapa do streaming nacional

O Amazon Prime Video tem investido de forma consistente em ficção brasileira desde Eu Sei Que Vou Te Amar e Sete Vidas, mas Lov3 ocupa um espaço diferente: é uma série que trata poliamor não como exotismo, mas como pano de fundo naturalizado para explorar comprometimento, ética e solidão. Esse deslocamento é relevante porque o público brasileiro de streaming já consumiu esse tema em produções americanas como You Me Her e Wanderlust, mas raramente dentro de um contexto cultural e socioeconômico reconhecível.

A série chega num momento em que pesquisas como o Relatório Panorama das Famílias, do Instituto DataPopular, apontam crescimento no número de brasileiros que se identificam com modelos relacionais não-convencionais, especialmente entre 25 e 35 anos, exatamente a faixa etária dos protagonistas. Lov3 não precisa converter ninguém. Precisa fazer sentido para quem já está vivendo isso sem ver isso na tela.

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