A HBO estreia neste domingo (26) O Hóspede Americano, minissérie de quatro episódios que reconstrói uma das expedições mais perigosas já realizada por um ex-presidente americano: a travessia de Theodore Roosevelt pelo Rio da Dúvida, em Rondônia, em 1914. A produção é dirigida por Bruno Barreto e protagonizada por Aidan Quinn no papel de Roosevelt, com Chico Diaz como o sertanista Cândido Rondon.
O rio que quase matou um ex-presidente
A expedição que serve de base para a série é historicamente documentada e ficou conhecida como a Expedição Roosevelt-Rondon. Roosevelt partiu para o Brasil logo após perder a corrida presidencial de 1912 para Woodrow Wilson, já com 55 anos e saúde debilitada. O que era para ser um safári científico virou uma das missões mais brutais já enfrentadas por alguém de seu perfil: mais de mil quilômetros de rio desconhecido, sem mapas confiáveis, com doenças, motins e mortes pelo caminho. O próprio Roosevelt quase não voltou vivo. Ele contraiu malária e febre reumática durante a travessia, perdeu dezessete quilos e, segundo relatos da época, chegou a pedir que o grupo o deixasse para trás. O rio, que era chamado de Rio da Dúvida justamente por não estar cartografado, foi rebatizado em sua homenagem: Rio Roosevelt.
Na série, além de Quinn, o elenco inclui David Herman como Farrel Nash, melhor amigo do protagonista, e Chris Mason como Kermit, filho de Roosevelt que também participou da expedição real. A escolha de centrar a narrativa nesse recorte específico da vida de Roosevelt, e não em sua presidência ou nas batalhas de San Juan Hill, já diz muito sobre o que a produção quer discutir: um homem no limite, longe do poder, testado pela natureza.
Bruno Barreto e uma produção que mistura dois mundos
Bruno Barreto é um dos diretores brasileiros com maior trânsito internacional. Ficou conhecido globalmente por Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), mas consolidou carreira em Hollywood com produções como Quatro Dias em Setembro (1997), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e View from the Top (2003). O Hóspede Americano representa um retorno ao Brasil com estrutura de coprodução internacional, reunindo elenco americano e brasileiro em locações reais na Amazônia.
Chico Diaz, um dos atores mais versáteis do Brasil, vive Cândido Rondon, figura central na história do projeto. Rondon foi o militar responsável por instalar linhas telegráficas nas regiões mais remotas do país e fundou o que mais tarde se tornaria a Funai. Era um homem que conhecia a floresta como poucos, mas que também representava os interesses do Estado brasileiro numa região disputada. Colocar Rondon em cena ao lado de Roosevelt é, narrativamente, uma escolha sobre choque de visões de mundo, não apenas de parceria logística.
As gravações em rio aberto trouxeram complicações reais. Aidan Quinn descreveu os problemas técnicos com os barcos como momentos genuinamente assustadores, e apontou uma ironia: Roosevelt, em seu livro Through the Brazilian Wilderness, publicado em 1914, relatou pavor de onças e aranhas. Na prática, o que quase inviabilizou a expedição foram desidratação, infecção e equipamento falho. A série parece interessada exatamente nessa distância entre o medo imaginado e o real.
O que uma série sobre Roosevelt diz agora
Bruno Barreto resumiu sua atração pelo personagem com uma observação direta: Roosevelt era complexo numa época em que complexidade era possível. Conservador que criou parques nacionais. Militarista que escrevia sobre natureza. Aristocrata que se jogou em condições que mataram homens mais jovens. Num momento em que produções biográficas tendem a simplificar seus sujeitos para um lado ou outro, O Hóspede Americano aposta num retrato de contradições.
A minissérie chega ao catálogo da Max em formato compacto, quatro episódios, o que sugere um ritmo sem espaço para digressões. Para o espectador brasileiro, há também o prazer específico de ver a Amazônia reconstituída com esse grau de atenção histórica, num projeto que trata o Brasil como cenário protagonista, não como pano de fundo exótico.
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