Psi: segunda temporada da série da HBO tem como foco a violência

Psi volta à HBO neste domingo (4) com uma segunda temporada que empurra o psiquiatra Carlo Antonini para fora do consultório e para dentro de contextos em que a violência se apresenta em camadas, do presídio ao ritual de exorcismo, passando pelas agressões domésticas. A aposta é mais ambiciosa do que a da primeira temporada, e o criador Contardo Calligaris não esconde isso.

A violência como paciente

Após um ano sabático na Itália, Carlo, vivido por Emílio de Mello, retorna a São Paulo para liderar uma ONG de atendimento a mulheres vítimas de abuso. O movimento não é apenas geográfico: a série usa o deslocamento do personagem para ampliar seu repertório temático sem abandonar o eixo central. “A ideia ainda é mostrar qual é a relação de um terapeuta com os seus pacientes”, resume Calligaris. O que muda é o perímetro dessa relação.

Emílio de Mello explica a virada de chave: a maioria dos personagens desta temporada não é paciente de Carlo no sentido clínico, o que libera o protagonista de parte do peso deontológico que definia suas escolhas anteriores. “Ele consegue ter uma relação mezzo a mezzo. Um pouco psicanalista e um pouco isento da responsabilidade”, diz o ator. Na prática, isso dá ao roteiro mais liberdade para colocar Carlo em situações de atrito direto com o senso comum, sem precisar enquadrar cada conflito dentro da ética do consultório.

A primeira temporada de Psi estreou em 2014 e consolidou um formato incomum para a ficção brasileira: episódios curtos, entre 25 e 30 minutos, com estrutura quase clínica, centrados em casos que funcionavam como estudos de comportamento. A série acumulou boa recepção crítica e posicionou a HBO Brasil como espaço para narrativas adultas de nicho, ao lado de produções como Carcereiros, que estrearia no ano seguinte.

O elenco e o desafio do texto mais fechado

Claudia Ohana, que interpreta a médica Valentina, foi direta sobre o processo de retomada depois de um ano afastada do papel: “O personagem já existia. Só mudaram as circunstâncias.” Mas ela aponta uma dificuldade concreta nessa segunda fase. A produção reduziu o espaço para improvisação, algo que havia marcado parte do trabalho na temporada anterior. “A gente se adaptou à nova direção, a menos improvisação, e fica mais difícil por conta do texto”, disse a atriz.

Ohana carrega um histórico relevante para o papel: além de décadas de carreira no cinema e na televisão brasileira, ela participou de produções que dialogam diretamente com o universo de Psi em termos de tom, como o longa Eu Sei que Vou Te Amar (1986), de Arnaldo Jabor. A densidade emocional que ela traz à Valentina não é ornamental.

Calligaris assina o roteiro ao lado de Thiago Dottori, e a direção é distribuída entre cinco realizadores com currículos densos: Laís Bodanzky, de Bicho de Sete Cabeças; Tata Amaral, de Antonia; Alex Gabassi, de O Hipnotizador; Rodrigo Meirelles, de A Vaga; e Max Calligaris. A escolha por diretores com filmografias comprometidas com personagens socialmente marginalizados não é coincidência. Ela informa o olhar que a temporada quer construir sobre violência e exclusão.

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O que essa temporada representa para a ficção brasileira na HBO

Psi opera num segmento ainda escasso: a série brasileira de drama psicológico que não precisa de um crime como motor narrativo. Não é um thriller, não é um procedural, não tem o suspense de quem matou quem. O que sustenta o interesse é a qualidade do conflito interno dos personagens e a credibilidade do universo que Calligaris, ele próprio psicanalista e colunista com décadas de atuação pública, construiu como base.

A segunda temporada estreia num momento em que a HBO Brasil intensificava sua produção local, antes do realinhamento estratégico que viria nos anos seguintes com a fusão com a Discovery. Psi é um dos poucos lugares na TV a cabo onde uma série nacional trata de saúde mental sem didatismo e sem melodrama. Essa escassez ainda existe, o que torna o retorno de Carlo Antonini menos uma continuação e mais uma prova de que o espaço nunca foi preenchido.

Psi, segunda temporada, estreia neste domingo (4), às 22h, na HBO.

  • julia benvenuto foto Psi: segunda temporada da série da HBO tem como foco a violência

    Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

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Ale
10 anos atrás

Agora eu quero vê-lo, eu acho Psi 2 tem sido uma das melhores séries da HBO Latino, eu estou contente de ser incentivado, habemos para as pessoas que querem ver diferentes cenários, mais realistas e ligados a nossas coisas da vida diária.

Ale
10 anos atrás

Agora eu quero vê-lo, eu acho Psi 2 tem sido uma das melhores séries da HBO Latino, eu estou contente de ser incentivado, habemos para as pessoas que querem ver diferentes cenários, mais realistas e ligados a nossas coisas da vida diária.

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