Rocketman: cinebiografia é uma linda e vibrante homenagem ao cantor Elton John

Rocketman estreia no Brasil nesta quinta-feira (30) e chega aos cinemas com uma pressão implícita: o filme precisa se descolar da sombra de Bohemian Rhapsody, que arrecadou mais de 900 milhões de dólares nas bilheterias mundiais em 2018 e criou um apetite real do público por cinebiografias musicais britânicas. O diretor Dexter Fletcher, que inclusive assumiu as filmagens de Bohemian após a demissão de Bryan Singer, conhece bem esse peso.

O musical que não tem medo de ser musical

O filme acompanha Reginald Dwight desde a infância em Pinner, subúrbio de Londres, até o estrelato como Elton John. A estrutura é linear, mas o formato não é convencional: Rocketman se assume como um musical fantástico, com personagens quebrando em coreografias e canções usadas como dispositivo narrativo, não apenas como trilha de época. Isso o diferencia concretamente de Bohemian Rhapsody, que funcionava mais como um filme de rock tradicional com cenas de show grandiosas. Aqui, músicas como Your Song, Tiny Dancer e Crocodile Rock surgem dramaturgicamente, moldando a psicologia do personagem, não apenas ilustrando sua discografia.

A parceria com Bernie Taupin, que assinou as letras das canções de Elton John por décadas, recebe espaço considerável no roteiro. Lee Hall, responsável pelo script, pesquisou a relação dos dois por anos. O próprio Taupin foi produtor executivo do projeto e aprovou publicamente o resultado, o que não é detalhe menor quando o assunto é precisão biográfica.

Taron Egerton canta, não imita

rocketman filme

A escolha de Taron Egerton para o papel central foi deliberada por uma razão técnica: ele canta todas as músicas do filme com a própria voz. Nenhuma dublagem. Egerton gravou as faixas ao longo de dois anos de preparação, com treinamento vocal específico para reproduzir o registro de Elton John em diferentes fases da vida. O próprio Elton acompanhou esse processo e participou como produtor, o que deu ao ator acesso direto a memórias e maneirismos que não aparecem em entrevistas públicas.

Antes de Rocketman, Egerton havia construído sua carreira principalmente dentro do universo de ação, com os dois filmes de Kingsman e o papel de Robin Hood em 2018. Um musical biográfico com exigência vocal e emocional dessa magnitude é, objetivamente, um salto de categoria. A recepção no Festival de Cannes, onde o filme foi exibido em maio de 2019, confirmou esse passo: Egerton recebeu aplausos da plateia e críticas consistentemente positivas da imprensa especializada. O Guardian deu quatro estrelas, destacando que ele “habita Elton John em vez de imitá-lo”.

O que separa este filme dos outros

Rocketman aborda vícios em drogas e álcool, compulsão por compras e a sexualidade de Elton John sem eufemismos. O filme tem classificação R nos Estados Unidos, exatamente por não suavizar esses elementos. Em comparação, Bohemian Rhapsody foi amplamente criticado por amenizar a vida pessoal de Freddie Mercury, especialmente sua bissexualidade e os anos finais antes de sua morte. A Paramount e a produtora Rocket Pictures, controlada pelo próprio Elton, resistiram a pressões para cortar cenas de nudez e conteúdo sexual, e o resultado é um filme que trata seu protagonista como adulto.

Isso tem consequência direta para o espectador brasileiro em 2019: Rocketman não é uma homenagem asséptica. É um retrato de um artista que construiu uma das carreiras mais longas do pop, com mais de 300 milhões de álbuns vendidos, a partir de uma infância de rejeição e décadas de autossabotagem. Quem conhece apenas Crocodile Rock nas rádios sai do cinema com outra escala para medir o que Elton John representa na história da música popular.

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    Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".

    Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.

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