O elenco de Vikings interrompeu as gravações na Irlanda por dois dias para marcar presença na San Diego Comic-Con 2014. Travis Fimmel, Katheryn Winnick, Clive Standen e Alexander Ludwig dividiram o palco com o criador Michael Hirst diante de um auditório lotado, em um dos painéis mais aguardados da edição. A série, produzida pelo canal canadense History, estava no intervalo entre a segunda e a terceira temporada e vivia seu melhor momento de audiência: a segunda temporada havia atraído uma média de 6 milhões de espectadores por episódio nos EUA, quase o dobro da estreia em 2013.
O peso da coroa no mundo de Kattegat
Com a queda do Rei Horik e Ragnar assumindo o trono, Vikings entrava em território narrativo mais complexo. Michael Hirst, que antes de criar a série escreveu os roteiros de Elizabeth (1998) e Os Tudors, construiu Ragnar como um herói movido pela curiosidade intelectual — o viking que queria navegar para o oeste quando ninguém acreditava que havia terra além do horizonte. A coroa muda essa equação. “Ele sentirá o peso que o poder tem e como as pessoas ao seu redor podem ser corrompidas”, disse Hirst no painel. É o mesmo arco que o próprio criador já havia explorado com Henrique VIII em Os Tudors: o homem que conquista tudo e descobre que o topo isola. Para Travis Fimmel, que veio de uma carreira majoritariamente publicitária antes de Vikings e transformou Ragnar em um dos personagens mais discutidos da TV a cabo nos anos 2010, a terceira temporada representava a chance de aprofundar o registro dramático além da ação física.
Lagertha, por sua vez, seguia como o ponto de maior identificação do público feminino da série. Katheryn Winnick, atriz canadense com faixa preta em taekwondo, contribuiu diretamente para a construção das cenas de combate da personagem — e fez questão de deixar isso claro no painel. “Eu acredito que nada na vida venha de uma maneira simples, ainda mais na época dos Vikings”, afirmou. A jornada de Lagertha como Earl enfrentaria resistência interna, de homens que ainda a viam como a ex-esposa de Ragnar antes de vê-la como governante. A série era, nesse sentido, mais cuidadosa do que a maioria dos produtos de fantasia histórica ao mostrar que o poder conquistado por mulheres naquele contexto precisava ser reafirmado constantemente.
Os bastidores que explicam o que aparece na tela
Clive Standen descreveu Rollo como um personagem que, depois de duas temporadas oscilando entre lealdade e traição, chegava à terceira com algo parecido com propósito. “Ele sobreviveu por um motivo e passará a acreditar que tem um papel maior na vida”, disse o ator. O dado histórico que Hirst guardava para a temporada ajudaria a justificar essa virada: o Rollo real tornou-se o primeiro duque da Normandia, antepassado direto de Guilherme o Conquistador. A série usaria essa trajetória real como espinha dorsal.
Alexander Ludwig trouxe o lado mais concreto da produção ao comentar sobre as cenas de batalha. Vikings é conhecida por usar CGI de forma pontual e exigir fisicalidade real dos atores. “Apesar de serem muito bem ensaiadas, eu ainda sinto um medo genuíno no set. São machados e escudos de verdade voando”, disse Ludwig, que na época tinha 22 anos e havia chegado à série vindo de Jogos Vorazes, onde interpretou Cato. A visceridade que aparecia na tela tinha custo físico direto para o elenco.
Hirst encerrou o painel com a promessa de um tom mais sombrio e de uma expansão geográfica significativa. Os rumores sobre o cerco a Paris, que circulavam entre fãs desde que a segunda temporada terminou, foram alimentados pelo trailer exibido com exclusividade no evento, mostrando navios em águas desconhecidas e batalhas em escala maior do que qualquer coisa que a série havia feito até então. Vikings estrearia sua terceira temporada em fevereiro de 2015, com dez episódios, e consolidaria a série como um dos títulos centrais da era de ouro da TV a cabo histórica, ao lado de Game of Thrones e The Last Kingdom, que chegaria ao ar ainda naquele ano. Para quem assistia desde o piloto, Paris era o horizonte que Ragnar sempre quis alcançar.
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Amanda Negrini é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Especialista em cultura pop e comportamento, é pesquisadora musical e autora da tese acadêmica “A Evolução das cantoras Pop Americanas: a criação de Madonna e a inovação de Lady Gaga".
Com credencial de imprensa internacional, cobriu eventos como a San Diego Comic-Con e a New York Comic-Con, realizando entrevistas exclusivas com criadores e elencos de produções globais como The Walking Dead, Supernatural e Cobra Kai. No Pop Séries, dedica-se à análise de premiações, videoclipes, comportamento no entretenimento e à cobertura de séries clássicas e contemporâneas.