Os Defensores chegou à Netflix em 18 de agosto de 2017 com uma das maiores expectativas do catálogo de super-heróis da plataforma. A série reuniu Matt Murdock (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand (Finn Jones) em oito episódios que funcionam como crossover e, em parte, como desfecho provisório de quatro arcos individuais construídos desde 2015.
O que funciona e o que pesa na conta
A premissa central gira em torno do Tentáculo, organização criminosa já explorada em Demolidor e Punho de Ferro. A novidade é revelar quem comanda o grupo e o que ele pretende com Nova York. Sigourney Weaver interpreta Alexandra, uma das líderes do Tentáculo, e entrega uma presença cênica inegável, mas o roteiro não sustenta o peso que o nome dela prometia. O grande espaço da vilania acaba ocupado por Elektra (Elodie Yung), ressuscitada pelo Tentáculo e rebatizada como Céu Negro, uma arma sem memória ou escrúpulos. O problema é de escala: Demolidor já apresentou Wilson Fisk, um dos antagonistas mais bem construídos de qualquer série Marvel, e depois o Justiceiro, que gerou reação tão positiva que garantiu série própria. Elektra como pivô da batalha final soa como um recuo criativo diante dessas referências.
O seriado foi desenvolvido com apenas oito episódios, número abaixo das temporadas individuais de cada herói, que variavam entre doze e treze. A decisão foi justificada pelos showrunners Marco Ramirez e Doug Petrie como uma escolha narrativa para manter o ritmo, mas o efeito prático foi outro: pontos cruciais são tratados de forma superficial, e a relação entre os personagens coadjuvantes mal existe na tela. A exceção é Claire Temple (Rosario Dawson), que atravessou todas as séries do universo Netflix-Marvel e aqui tem o arco mais satisfatório entre os personagens de suporte. O encontro dos quatro protagonistas em si funciona, e a química entre Cox, Ritter, Colter e Jones é o elemento que sustenta a série quando o roteiro falha.
Quatro carreiras, uma aposta conjunta
Charlie Cox já consolidava Matt Murdock como o personagem mais bem recebido do universo, com duas temporadas de Demolidor elogiadas pela crítica. Krysten Ritter construiu uma Jessica Jones áspera e economicamente escrita que agradou tanto ao público quanto a críticos de quadrinhos. Mike Colter trouxe em Luke Cage a primeira série Marvel a colocar um herói negro no centro sem concessões, com trilha sonora e ambientação que viraram parte da discussão cultural da temporada de 2016. Finn Jones teve recepção bem mais fria em Punho de Ferro, série que acumulou críticas pelo ritmo lento e pela falta de profundidade no protagonista. Os Defensores opera, entre outras coisas, como uma tentativa de reposicionar Danny Rand ao colocá-lo em contato com os outros três, e o seriado usa a dinâmica grupal para cobrir o que a série solo não resolveu.
O que a série deixa no ar
O desfecho distribui os personagens em direções distintas. Matt é dado como morto na batalha final, e Danny assume temporariamente a missão no Hell’s Kitchen. Jessica volta ao anonimato como estratégia de sobrevivência. Luke parte para o Harlem em busca de um papel definido. São ganchos limpos, mas a estrutura de oito episódios deixa uma sensação clara de que a série funcionou mais como interlúdio do que como evento.
Os Defensores estreou no período em que a Netflix acumulava mais de 100 milhões de assinantes globais e apostava no universo Marvel como um dos pilares do catálogo. A série foi bem assistida na plataforma, mas a recepção crítica foi morna: no Rotten Tomatoes, ficou com 75% de aprovação dos críticos, abaixo de Demolidor (segunda temporada, 79%) e bem abaixo de Jessica Jones (primeira temporada, 93%). Para quem chegou às séries individuais, Os Defensores entrega o que prometeu, que é ver esses quatro no mesmo espaço. Para quem esperava que o encontro resolvesse o que cada série deixou em aberto, a conta não fecha completamente.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.

