Desalma estreia no Globoplay em 22 de outubro com uma proposta que o streaming brasileiro ainda não havia testado: um drama sobrenatural ambientado numa comunidade ucraniana fictícia no sul do país, onde um assassinato desencadeia algo muito mais antigo do que a investigação policial consegue alcançar.
O mistério que mora no sul
A cidade de Brígida existe como cenário ficcional, mas foi construída sobre referências geográficas e culturais concretas. As filmagens aconteceram na Serra Gaúcha, região que concentra uma das maiores heranças de imigração eslava do Brasil, com arquitetura, rituais e idioma que sobrevivem há mais de um século relativamente intactos. Essa escolha de locação não é só estética: ela define o tom de confinamento que a série persegue.
O gatilho narrativo é a festa pagã Ivana Kupala, celebração de origem eslava ligada ao solstício de verão, em que o fogo e a água têm papel purificador. Na noite da festividade, a filha de Haia, a bruxa vivida por Cassia Kis, desaparece na floresta. O corpo é encontrado dias depois no rio. A morte não fecha nada: ela abre caminho para que segredos guardados por décadas comecem a emergir em outros habitantes de Brígida. É a estrutura clássica do mistério de pequena cidade, mas o subtexto é sobre memória, pertencimento e o custo de manter viva uma identidade cultural em terra estrangeira.
Quem está por trás
A criadora Ana Paula Maia chegou ao projeto a partir de uma experiência pessoal. Nascida no Rio de Janeiro, ela se deparou com a comunidade ucraniana ao se mudar para Curitiba e se surpreendeu com a densidade cultural de um grupo quase invisível para o restante do país. Maia já tinha no currículo a trilogia de romances sobre trabalhadores do sertão, com destaque para O trabalho sujo dos outros, e a adaptação de Elon Morales para o cinema. Em Desalma, ela amplia o interesse por comunidades à margem do imaginário urbano brasileiro, desta vez pelo ângulo do sobrenatural.
A direção artística é de Carlos Manga Jr., cujo histórico inclui episódios de Carcereiros e Bom Sucesso, séries com DNA bem diferente do que ele propõe aqui. Manga Jr. descreve Desalma como um drama sobrenatural, não um horror convencional. O objetivo não é o susto, mas a angústia acumulada, um crescimento lento de desconforto que se instala antes que o espectador perceba.
O elenco reúne três das atrizes mais consistentes da televisão brasileira. Cassia Kis, que recebeu o Prêmio APCA e acumulou indicações ao Troféu Imprensa ao longo de décadas na Globo, carrega o peso central da trama como Haia. Claudia Abreu, que desde A Favorita transita com facilidade entre drama e suspense, interpreta uma mulher solitária cuja solidão guarda camadas. Maria Ribeiro, conhecida pelo trabalho em Amor à Vida e no cinema por Divã, vive uma mãe recém-viúva que chega a Brígida sem entender as regras do lugar.
O que muda no mapa das séries brasileiras
O Globoplay lançou Desalma num momento em que ainda consolidava seu catálogo original, ao lado de Onde Está Meu Coração e As Five, séries com perfis muito distintos. A aposta num subgênero híbrido, drama com elementos de thriller e sobrenatural, representava um risco real de público num mercado onde produções nacionais de mistério raramente sustentavam audiência além do episódio de estreia.
O ponto de diferenciação mais concreto é o recorte cultural. Séries como Dark e Twin Peaks são referências válidas pela atmosfera, mas Desalma acrescenta uma camada que aquelas não têm: a tensão entre preservar uma herança cultural e integrar-se ao país de adoção. O imigrante que Ana Paula Maia descreve como “invasor que foge da fome” carrega consigo rituais que a terra nova nunca pediu, e é exatamente esse atrito que alimenta o mistério. Brígida não é assombrada por algo sobrenatural abstrato. É assombrada pelo peso de existir fora do lugar.
Julia Benvenuto é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Com sólida experiência na cobertura de entretenimento e cultura, atuou como repórter para veículos de grande prestígio nacional, como a revista Casa e Jardim e o jornal Folha de S.Paulo. É pesquisadora da cultura pop e autora da tese acadêmica "A Revolução dos Losers: como o seriado Glee, valendo-se de símbolos da cultura pop e técnicas de dramatização da Broadway, representa a juventude do século 21”. No Pop Séries, dedica-se à crítica cinematográfica, à análise de narrativas televisivas e à cobertura dos principais lançamentos do mercado de streaming.


